Terça-feira, 26 de Agosto de 2014

 

Ask me. I won’t say no.

 

Não te vais calar, pois não? Isto vai durar a noite toda sem que tenhas coragem de sair, abruptamente, sem aviso prévio. Sem que recorras a uma conveniente ida à casa-de-banho. Ou sem que lhe digas, olhos nos olhos, “se te calares neste preciso momento, durante dez minutos - não é pedir muito, dez minutos, pois não? – prometo não gritar CAAAALA-TE!” És demasiado educado. Ou, apenas, educado. Ou demasiado cobarde. Sempre foste um tipo certinho, tu. Incapaz de levantar a voz em público. Lembra-te que não estás sozinho com esta criatura. Estás num bar merdoso, numa zona merdosa, a beber um gin manhoso espanhol, daqueles fabricados num subúrbio madrileno. São onze da noite. Só aceitaste estar ali, com a criatura, porque esperavas poder vê-la. Ela costuma ir ali, às quartas. Hoje é quarta. Mas hoje não. O que é que ele está a dizer, agora? Ah, fala de jazz. “Já o disse várias vezes: o Coltrane obliterou o Webster”. A sério, meu estúpido de merda? “Obliterou”? O grande Webster? Exercício lúdico: imagina, de forma educada, claro, o travelling do teu punho na direcção daquela cara. Uma pancada seca capaz de lhe obliterar transitoriamente o dom que Deus, em momento desinspirado, lhe concedeu: o de poder exprimir aqueles fantásticos pensamentos pela palavra. Pow. Lindo. Estás a querer enganar quem? Serias incapaz. Não é o teu “estilo”. Há um “estilo”, está a ver?, e esse não seria o teu “estilo”. “É a vanguarda que rasga, que redefine, que agita. Eh pá, que revoluciona!”, prossegue a criatura. Qual é o tema, agora? Deve ser cinema. Ou “literatura”. Ou o diabo que o carregue. Desvias o olhar do balcão. Olhas para a porta, que está aberta. Está calor. Lá fora, o vai-e-vem de noctívagos. Uma vaga habitualmente densa àquela hora da noite. Ela acaba de entrar. Caramba: tão bonita. Vai dar início ao jogo “não-quero-que-ela-repare-em-mim”. Vai correr bem. Ela não vai reparar em ti. A tua timidez congénita não te vai deixar ficar mal, meu querido. Até a presença do anti-webster te vai parecer útil. Acabaste a bebida? Pede outra. Tenta outra mistela. Ela está a falar com alguém. Um gajo qualquer. Sentou-se ao seu lado. Tudo bem, calma. “…e é assim, percebes?”  “Assim como?”, perguntas. “O verdadeiro cinema, pá. O cinema de autor. Não estás a ver?” Não, não estás a ver. Não queres ver. A única coisa que queres ver está sentada com um gajo, a uma mesa. Estão a rir. Chegou a tua bebida. O primeiro gole. A mistela é uma mistela, mas é uma mistela fresca. Está calor, sabe-te bem. Voltas a observá-la. Reparas que ela se levantou e parece vir na tua direcção. O teu ritmo cardíaco. It don’t mean a thing if it ain’t got that swing. Espera: estás no percurso que conduz ao duplo vê cê. Ela passa por ti. Será que ela alguma vez reparou em ti? “O cinema português… o Costa, a Villaverde… agora a Varela, estás a ver?” Perfeitamente. Ela regressa. Volta à mesa. Reparas que ela colocou a mão sobre a perna dele. Ele sussurra-lhe qualquer coisa, que a faz sorrir. Levantam-se e saem, de mãos dadas. Bebes o resto da tua bebida, de um só trago. Não te estás a sentir bem. “Pá, em boa verdade, o que era o cinema antes do Scorcese ou do Coppola?”

 

Pow.

 

MacGuffin

despesadiaria às 22:47
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