Quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

 

A nogueira centenária e o Cotovelo: notas sobre duas memórias do Oeste

 

Três sacas de nozes (um interlúdio)

 

Ainda as lágrimas fáceis se lhe penduravam nas maçãs do rosto, balouçando quais pingentes de um candelabro datado, quando a minha avó abandonou o casal. Levou consigo o minúsculo canário amarelado, cujos trinados me mantinham acordada durante as visitas, a velha Singer de pedal herdada da mãe, as bolinhas de naftalina e todo um conjunto de traquitanas inúteis: recordações, justificava, precisaria de todas e das mais que deixara perdidas nas arcas bafientas do casal. Amontoou os cacaréus à trouxo-mocho num dos quartos do novo apartamento, um rés-do-chão no novo condomínio privado, equipado com piscina, portões automáticos e jovens famílias pretensiosas. Ali, frente à praça da pequena localidade suburbana com acesso direto à autoestrada número um, tentava recriar o caus da querida cova decrépita, lar que a solidão enojada a obrigara finalmente a abandonar.

Por ideias legais, culturais e outras que tais, a maioridade libertava-me da constrição - visitas, quais visitas; no momento em que os dezoito rastilhos incandescentes se fizeram linhas de fumo escuro, trepando o ar sobre o bolo de chocolate rumo ao teto branco da sala, soltaram-se os grilhões com pancadinhas nas costas e beijinhos de parabéns. Mas as visitas mensais mantiveram-se graças a artimanhas várias, explorando os meus desejos, troçando das minhas esperanças despudoradamente. Um ano houve em que eu queria muito ir à Feira de Outubro: chegada ao meu décimo-nono outono, na carteira guardava um orgulhoso cartão rosado que me dizia apta para conduzir os automóveis da garagem e a minha mãe prometera emprestar-me o mais velho se eu fosse com ela visitar a minha avó.

 

A figura acatitada da minha avó, enrolada num casaco de malha preto, fazia-me lembrar   um fósforo ardido, negro e curvado na forma de gancho sobre o seu corpo findo. Abriu os mil trincos da porta e encaminhou a filha e a neta para a sala sem cerimónia, as mãos encarquilhadas apontando para a porta envidraçada como se varressem do ar um cheiro imundo, funesto intruso entre as correntes de naftalina evaporada que vogavam pelo apartamento. Deixei-me afundar no sofá de couro. Remirei as cortinas, velhas amigas adejando ao sabor do vento que entrava pela janela entreaberta, e nelas me fixei enquanto ouvia a conversa à minha direita.

- O marido da Isabel apanhou as nozes todas - a frase foi jogada ao acaso, sem entoação óbvia ou contexto; costume da minha avó, o de atirar insinuações misteriosas, vindas de nenhures, obrigando o interlocutor a redobrar a atenção por medo de lhe ter escapado algum detalhe da conversa. Ao meu lado, a minha mãe estudava o padrão intricado de uma renda.

- O que é, mãe?

- O marido da Isabel - a avó arrastava as palavras, como se ensinasse a filha a falar de novo - foi até à nossa nogueira e apanhou as nozes todas. Tu e o teu irmão não quiseram ir lá apanhá-las…

A renda da cor do marfim tombou no colo exasperado da minha mãe. Uma das agulhas rolou pela coxa esquerda e caiu na tijoleira escura com um retinir nervoso.

- Ó mãe, eu e o mano trabalhamos e temos família! E nenhum de nós se ia meter lá, no casal, assim de corpinho bem feito para apanhar nozes. A mãe já viu a altura das ervas? Já imaginou a quantidade de carraças que lá deve haver?

- O marido da Isabel já as apanhou, pronto. Três sacas: - esticou três dedos enrugados e deixou-os frente ao cenho franzido da minha mãe, quais espectros bruxuleantes - uma para ti, - baixou o anelar -, outra para o teu irmão - baixou o dedo médio - e outra para a Isabel, já que o marido teve aquele trabalho todo e eu não quero ser ingrata - disse isto de olhos fechados, abanando a cabeça num vaivém dolorido até encostar o queixo ao peito, com uma solenidade despropositada.

A minha mãe olhou para mim, deitou a língua de fora, fez uma careta. A avó acordou do curto transe para arriscar uma ordem.

- Não te demores é a ir lá buscar a saca.

- Ó mãe, já lhe disse que isto não pode ser como e quando a mãe quer!

- Então e a miúda, não pode lá ir?

As duas gerações, profecias do meu destino num espelho turvo, remiravam-me de alto a baixo; ou ver-me-iam pela primeira vez, menina-dona, espinha longa para chegar às panelas da última prateleira e ancas parideiras.

 

Fui buscar as nozes na véspera das primeiras esperas de touros da feira.

 

S. White

despesadiaria às 08:24
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