Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

 

A única gaja vai sentada nas pontinhas, por respeito. O bote arrasta o fundo na areia. E o vão baldado entre nós e o mundo regurgita não sei que espessura de água aberta onde era preciso afundar-se. O solo é como uma argamassa de peixes mortos: cada passo amassa espinhas e conchas, respinga um lodo mesclado de escamas. A cratera é uma grande urna onde a noite amontoa-se de suas operações mágicas: Bernadetes de plástico, medalhas da Virgem. Uma cadeia de desaparições, num balé desordenado e sem peso, a escorrer da calheta por um cordão umbilical de salinas e areia. Os embarques atrasam diariamente, são uma espécie de miragem gasta. Pela praia, há bolas de vidro fosco para ler o futuro. Pacotes de folhas de tabaco secam sobre cordões. Entre os pretos bebe-se café apimentado. As mulheres dão folhas aos camelos ajoelhados. Convidam os que chegam a beber uma colher de água potável. As somalis são superfícies marrons e elásticas de carne entre a saia florida e o corselete estreito que desce dos ombros e cobre as tetas (tão atrofiadas nos machos como nas fêmeas). Em volta da capela (a casa é um nó de cordas bem atadas), centenas de velas e lanternas a querosene. Mais claro do que de dia. Por trás de paliçadas reluzentes de cartazes aonde se vão consolar casais cujos integrantes são sempre peças sobressalentes: limoeiros, romãzeiras, altas como adolescentes de quinze anos. Empórios de símbolos, rodeados de flancos e sacos de farelos. Balizados por faróis e ilhotas eriçadas de canhões, os ecos mais decorativos do mundo colonial. Um resíduo, descritível e seco. No céu, a lua descamba em meio a dois Oceanos evaporados. O sal e os cristais que ficam nas vidraças, vapores descoloridos, misteriosamente decantados, uma borra de marés e de pedras. Daqui avisto bois a subir, de regresso de uma noite muito mais essencial do que a nossa. Vão beber água da chuva que é a água do Oceano Índico destilada. O solo é um feltro húmido. Nos bares, a essa hora, não servem senão um cachimbo à turca ou à persa e café refervido. E o chiar de manteiga fundida dos grãos de café sobre as malhas da triagem liga todos os ruídos. Na mata, aves altíssimas, como os flamingos, atacam à bico tudo o que não é ave. Dizem que sabem arrancar olhos e desenrolhar garrafas. Para mim a matemática é simples: são cinco balas para elas e uma para mim. Mas não vieram. Sob as asas do ventilador, os sacos de açúcar e de arroz, os fardos de couro de boi e de peles de cabra, vão até o teto de chapas onduladas. Nas prateleiras, potes de café de cobre bem estanhado por dentro e por fora. Incensos de madeiras aromáticas. Pela janela aberta um verdelhão flutuante de algas entre nuvens de lixívia. Estilhaços atrás de uma aba de rochedo. A cidade, abaixo do nível de uma anca de criança, é um mundo de ferrolhos, tubos, membranas como no interior de um tórax, canaletas com arco-íris de petróleo que, aos poucos, descasca e cai sobre o cascalho somali (um sítio onde não ter uma coisa não é necessariamente ter outra). Conto dezasseis cabanas. São uma colmeia de coral cinzento. Cubos, esferas vivas. Que atmosfera de centro espírita! Cheia. Materialmente invulnerável. E aumenta de minuto a minuto, como as plantas que os faquires fazem crescer apenas com olhadelas e ziguezagues de flautas. Eu não estou aqui para sessões de espiritismo. Volto ao bote. A água: treva pastosa, de onde subia ainda aqui e ali, como um rojão mal apagado, um verde espesso de óleo pesado, um verniz móvel, radiado de irisações. Ao longe, uma cortina de areia desabrocha no mar, embaciada sob a roda de proa. As espumas se estendem sobre a água como mãos fervilhantes. Por baixo, o mundo gelatinoso incha, estira, contrai, sopra um protoplasma vitrificado, é um balé de vespas. Sobe-se a corrente com dificuldade. Quinze minutos para fazer meio quilómetro. As algas ou igarapés trepam pela corrente da âncora, deixam no convés as pegadas molhadas que são o arrastar mole das suas barrigas. Ali, habituados a coisas que já não existem, agachados na popa, a organizarem-se num acocorar colectivo para rebocar a piroga, os pretos me vão ensinar que a vantagem da partida confunde-se com as vantagens do inventário.

 

Peor

despesadiaria às 06:06
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014