Quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

 

Lírios selvagens

 

Quando ela saiu do quarto de banho, ele já estava todo nú e a bebericar outro whisky. “Anda”, disse-lhe, “quero te lamber essa cona toda”. Ela despiu-se e colocou-se de quatro em cima da cama. Adorava sentir o nariz dele a esfregar-se no seu cu enquanto ele a lambia. Os barulhos propositadamente obscenos que ele fazia deixavam-na louca de desejo, e não demorou muito até que agarrasse as nádegas com ambas as mãos para as abrir tanto quanto pudesse, enfiasse a cabeça na almofada e soltasse por ambos os lados todo prazer que sentia.

 

Tudo isto se passou há pouco mais de meia hora, mas parecia-lhe tão longe agora. Deitada na cama, despenteada, suada e ainda um pouco corada, olhou-se no gigantesco espelho de tecto e sentiu-se feia como há muito tempo não se sentia. Quer dizer, nunca se tinha considerado propriamente uma mulher bonita. Sempre tinha sido gorda e sempre tinha usado óculos bastante graduados pelo que, durante a adolescência, chegou mesmo a pensar que nunca iria conseguir fazer com que algum homem a amasse. No entanto, a ideia que tinha de amor foi-se modificando com a idade e se, mesmo no casamento, essa sensação de fealdade, de repulsa, nunca se tinha verdadeiramente dissipado, com ele tudo foi, era diferente.

Trabalhava para ele há 10 anos e tinham um caso quase desde o princípio. Ele também não era propriamente bonito, e era uns bons 15 anos mais velho que ela, mas qualquer coisa nele a atraiu intensamente desde a primeira vez que se viram. Num daqueles serões natalícios de fecho de contas, foram os últimos a ir para casa. O olhar predisposto dele foi quanto bastou.

 

Ainda não acreditava completamente no que ele lhe tinha acabado de contar. A empresa ia falir e ele ia fugir para o estrangeiro! Mais, precisava da ajuda dela para falsificar alguns papéis da contabilidade porque andava há uns meses a desviar o dinheiro das retenções na fonte.

Acompanhado pelo som do autoclismo, ele saiu da casa de banho com outro copo de whisky na mão. “Levas-me a casa?”, perguntou de forma quase retórica. “É que já estou muito bêbado para pegar num carro”.

 

Saíram da garagem do motel. Ela conduzia à mesma velocidade a que os seus pensamentos se sucediam dentro da sua cabeça, ou pelo menos tentava. Queria fugir dali o mais depressa possível, fugir dele, fugir dos colegas, fugir de si própria. Ele, apesar dos planos cuidadosamente delineados de aproveitar a viagem para a convencer mais um pouco, adormeceu embriagado mal o carro entrou na auto-estrada. Ela sentia-se esquizofrenicamente indecisa, como se estivesse presa num colete-de-forças mental, e quanto mais puxava por um dos lados mais era puxada pelo lado oposto. Encontrava-se totalmente dividida entre o único homem que a tinha feito sentir-se desejada e amada, mesmo que agora ele a fosse abandonar, e a amizade, solidariedade ou simples decência que a ligava aos colegas do trabalho, por muito que fossem maioritariamente uns tristes e uns invejosos sem qualquer tipo de ambição na vida.

 

Foi aquele breve instante, em que deitada na cama do motel se olhou ao espelho, que fez pender a balança. Ela sabia que lhe seria insuportável voltar a sentir-se tão feia, e ainda por cima sem ele ao seu lado a mostrar-lhe que na realidade não o era. “Lá porque foi ele que mo deu, isso não lhe dá o direito de mo tirar”, pensou enquanto soltava o cinto de segurança dele o mais silenciosamente que conseguia.

De seguida, acelerou a fundo e guinou o volante.

 

R0wt4g

despesadiaria às 12:45
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