Terça-feira, 29 de Abril de 2014

 

Um gajo, saído da casa de banho, passa por mim com uma faúlha de cocaína a endurecer o bigode. Vou beber um copo e mai'nada. Pronto. Do lado de fora, vejo que a minha gabardina não envelheceu bem. Avisto mais: a igreja do outro lado da rua não tinha qualquer necessidade da ogiva. Nem mesmo era preciso chanfrar as janelas. Enfio os botões que faltam nas casas da gabardina. Desvio das bicicletas escoradas ao gradil. Toda a vida humana me roça e pinica. Nos degraus que se afundam a cada passo para dentro da igreja, a maralha contundia-se à saída. A porta foi ladeada por colunas, numa tentativa de comprimir e dar airosidade ao corpo. Mas não. Parece uma sereia gorda de espartilho. A cruz, lá em cima, como a ponta de um florete. É isso. Os enredos arquitectónicos nesta alameda por vezes são erros, enrijados e felpudos, que não acabam de se desfazer. Apenas um janelão liso na lateral, tenta dissimular a panascaria. Claro, não se podem negar certos atractivos. Todos os motivos ao mesmo tempo, apresentados em pé ou deitados. Bosquetes, canteiros, relvados, pomares, corcovas dispostas em renque. Os arquitectos descaroçaram os domicílios. Foram pedir ícones emprestados. E já não se conseguem destrinchar dessas confusões paralelas. Enfim. Paro às costas de uma figueira. Parece até que tenho vergonha. Vigio de longe um carro da polícia estacionado na esquina. Direita ou esquerda. É a escolher. A polícia desce, eu subo. Eis uma contradança a que estamos habituados. O detalhe picante: o Tejo murmura, mas já não afoga ninguém.

 

Peor

despesadiaria às 02:53
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