Sábado, 6 de Setembro de 2014

 

A nogueira centenária e o Cotovelo: notas sobre duas memórias do Oeste

 

O Cotovelo

 

O Cotovelo é um lugar, delimitado por duas placas brancas onde o seu nome é gritado em letras negras, não serifadas, cagadas pelos pássaros e gastas pelo tempo. A primeira placa dista poucos metros da sua gémea, esta cortada diagonalmente por uma decidida risca vermelha; esses metros torcem-se na segunda identidade do Cotovelo: uma curva; nela a trajetória alcatroada da estrada nacional dobra-se violentamente, como um cotovelo encaixado no ângulo mínimo entre o braço e o antebraço de uma pessoa; o Cotovelo-lugar e o Cotovelo-curva confundem-se num só olecrânio arredondado, espetado entre as vinhas e os primeiros pomares de pêra-rocha, na forma extrema da contorção física permitida quando a mão tenta tocar no ombro que lhe fica por cima.

Meia dúzia de casas baixas vivem encurraladas por esta trágica prega da estrada nacional. A maior parte delas comtempla os carros que passam a partir da estreita berma empoeirada, mas outras refugiam-se no interior da curva, e entre elas abre-se um carreiro cimentado, da largura de uma carrinha. As fachadas caiadas são enfeitadas por faixas azuis ou amarelas que delimitam o contorno das portas e das janelas; as pinturas dos reis rasgam a brancura das paredes rugosas: um vaso solitário e dois corações entrelaçados pintados na madrugada, o desejo de bons reis e as iniciais V.R. marcadas a azul. Nos exíguos quintais levantam-se limoeiros e nespereiras, à sua sombra montam-se mesas de plástico encardido e casotas de madeira; nos terrenos mais fartos há lugar para adegas improvisadas, inundadas pelo odor castiço do mosto a fermentar.

No princípio daquele outubro extraordinariamente quente, a casa onde moravam a Dona Isabel e o marido ainda conservava as pinturas do ano anterior, e do outro antes desse; a casa ficava mesmo à entrada do Cotovelo: uma construção atarracada e angulosa, com uma faixa azul colada ao chão de cimento do quintal. Hortênsias arroxeadas e estranhas samamboias de tez amarelada ocupavam o declive entre um estendal colocado no limite do cimento e a berma da estrada.

Parei o carro num espaço para o efeito, atrás do caixote do lixo que servia a minúscula população do Cotovelo. A Dona Isabel estava à minha espera, encostada ao sinal que anunciava o fim da proibição de ultrapassagens, com as mãos enfiadas no bolso oval da bata. Era uma mulher baixa, muito bronzeada do trabalho no campo, com o cabelo curto manchado de cinzento, como se tivesse passado debaixo do escadote de um pintor e alguns salpicos de tinta lhe tivessem acertado na cabeça. Sorria sempre, a tudo e a todos, a simpatia dos grandes dentes salientes a saltar-lhe dos lábios grossos, rachados do sol.

— Ai rapariga, ‘tás igual à tua mãe! — disse a Dona Isabel quando me viu sair do carro. Virou-se para trás, fitando alguém escondido atrás da selva de hortênsias por aparar. — Jorge? Acorda, homem!

Atravessei a estrada, remirei várias vezes um lado e o outro à procura da segurança que sabia nunca ter naquela curva cega. Quando cheguei ilesa ao outro lado, recebi um abraço capaz de me esmagar as costelas; olhei por cima do ombro forte da Dona Isabel e vi o marido levantar-se pesadamente da cadeira de plástico onde dormitava. Ao seu lado estavam duas das três sacas de nozes das quais a minha avó falara.

Atão, paraste o carro ao pé do caixote, foi? — o homem coçou a sua grande barriga e ajeitou a boina quadriculada que apoiava no cocuruto. — Vais ter que m’ajudar, ist’inda é pesadote.

Subi a rampa cimentada que dava acesso à casa e cumprimentei o Senhor Jorge com dois beijinhos rápidos e fugidios. Cumprindo com as suas instruções, agarrei numa das extremidade da primeira saca; o homem agarrou na outra e descemos assim a rampa, em direção à estrada: ele apoiando parte do peso na falsa gravidez e eu às arrecuas, tentando não tropeçar nas falhas do pavimento. A Dona Isabel fora para a extrema do Cotovelo e daí gritava direções:

— Podem vir… Ouviram? PODEM VIR!

Conseguimos transportar as duas sacas de nozes até ao outro lado da estrada; ficaram encostadas a uma pequena murada, atrás do carro, à espera: a Dona Isabel e o marido insistiram que eu voltasse à casa deles para ir buscar uns sacos de maçãs ácidas:

— São parecidas c’as do teu avô, vais gostar — insistia a Dona Isabel, sorrindo ainda mais, com os dentes e com os olhos escuros, enormes quando vistos através da graduação dos óculos de massa arredondados. Ficámos a conversar no pequeno quintal, enquanto o marido desapareceu nas traseiras da casa, onde estava o barracão cheio de alguidares de fruta; de repente, ouviu-se o brado agudo de uns pneus desgovernados.

 

S. White

despesadiaria às 09:00
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