Quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

 

(Micções)

 

Laurinda era puta, e recebia numa Ford Transit de 89. Eu já há muito reparara naquela velha furgoneta, discreta e estrategicamente estacionada num dos acessos em terra batida que segue da nacional para o interior do pinhal. A povoação mais próxima fica a uns oito ou nove quilómetros de distância daquele local, facto que permite a Laurinda receber a clientela (composta maioritariamente por motoristas de pesados, velhos miseráveis, e outros desgraçados) com o recato e sossego necessários ao ofício (apenas interrompido pelo constante e monótono bramido do trânsito na nacional). Entre a furgoneta e Laurinda poderíamos dizer que não havia muita diferença de aspecto: apesar de velho e desgastado, a idade de ambos manifestava-se de uma forma digna e cuidada, não denunciando, à primeira vista, as agruras e dificuldades da vida pessoal de cada uma.

Naquele final de tarde, e após certificar-me, de longe, que Laurinda se encontrava só, aproximei-me cautelosamente da velha carrinha branca, abeirando-me da porta do lado do condutor. Como não se apercebeu da minha presença (estava a ouvir música e a ler uma revista), não tive outro remédio que não bater no vidro. Estranhamente não se assustou com a minha súbita aparição, sobretudo se considerarmos que me apresentava com um capacete e equipamento de licra, e segurando a bicicleta com uma das mãos. Olhou-me apenas com curiosidade, baixando de seguida o vidro da janela ao notar o mau estado físico em que me encontrava. Expliquei-lhe que sofrera uma queda no pinhal, e estava em crer que tinha a clavícula partida. Como ficara igualmente com o telemóvel em frangalhos, pedi-lhe o favor de me permitir fazer uma chamada para alguém que me viesse buscar. Não só não o fez, como me obrigou autoritariamente a entrar para a Transit, incumbindo-se ela própria de meter a bicicleta na parte de trás da carrinha. Transportou-me de seguida, e a toda a velocidade, para o Hospital da cidade de V. Local onde, além da clavícula fracturada, detectaram-me um trombo numa das artérias do braço, cuja demora na remoção poderia implicar consequências bem mais nefastas.

Ainda hoje costumo ver a velha furgoneta estacionada naquele mesmo local. Porém, não mais falei com Laurinda, e, na verdade, nunca lhe cheguei a dar o devido agradecimento.

 

nev

despesadiaria às 15:29
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