Terça-feira, 16 de Setembro de 2014

 

Segue-se uma interrupção na programação. Pedimos desculpa pelo incómodo.

 

Estou tão bronzeada quanto me é possível. Quando me vejo nua no espelho do quarto, as minhas maminhas parecem feitas de neve. Dos livros que li frente ao mar, numa cadeira azul que o meu peso enterrava na areia até as nádegas roçarem nos sedimentos micrométricos, fiquei com as clavículas cobertas de caramelo bem apurado. Nenhuma outra parte do corpo iguala o tom torrado que se estende do esterno ao contorno arredondado de cada um dos meus ombros. A barriga é um copo de leite servido numa chávena de café mal lavada: apoiava os livros na zona do diafragma e eram como os toldos compridos dos cafés, mantendo o umbigo na sombra fresca. Para tirar das costas o branco doentio de dois anos sem estender uma toalha na areia, lia deitada de barriga para baixo, fincando os cotovelos na areia com força, ou então levava os livros para a beira-mar, onde ficava de pés mergulhados na água.

— Não podes largar isso?

Aproveitava a baixa-mar para dar descanso aos olhos. Ia para as rochas procurar caranguejos. Todos os dias levava para a praia a faca das lapas — não a comprei com esse nome, mas por vários anos usei-a para raspar vida das rochas. Não a desembainhei: as maiores lapas que vi eram do tamanho de terceiras falanges. Olhei-as, desiludida, lembrando os molúsculos do tamanho de polegares que cheguei a apanhar na Arrifana. Homens de chapéu largo e calças caqui procuravam nos buracos das rochas as minhocas para o remolhão. Mais tarde via-os empunhando com orgulho polvos do tamanho de uma mão, talvez ignorando a atrocidade que é pescar bichos tão mimosos, que nem um pires enchem depois de cozidos.

O sol despedia-se do verão com uma generosidade surpreendente; um sol forte, de um branco sufocante. As gotículas de suor formavam-se sobre a minha lombar e eu lavava-as no mar. Saltei sobre as ondas, agarrando sempre a parte do biquíni que a corrente queria arrancar, e mergulhei para fugir de outras, emergindo depois com o cabelo a cobri-me as omoplatas. Só numa tarde fiquei sentada nas dunas, impotente perante a natureza que me encarava, sentindo o meu próprio sal sem remédio. Nessa tarde, a maré devorou quase todo o areal e eu diverti-me com a urgência das pessoas que viam as suas toalhas encharcadas pela extensão da vaga — cada uma varrendo mais castelos que a anterior. As ondas rebentavam com estrondos ocos, sucedendo-se numa cadência tal que pareciam ecos de um único brado primordial; iras que convergiam em estoiros ensurdecedores, o mar enquanto criatura monstruosa. Mas vendo como as ondas se somavam em montanhas líquidas e refulgentes, nascia a paz como eu nunca a tinha sentido. As rebentações furiosas pintavam a água de branco e ofereciam-lhe uma textura macia, e por cima delas deitavam-se nuvens rubensianas; a alvura celeste unida com a espuma: apetecia-me ser engolida pelo monstro melífluo, deixar o meu corpo ser centrifugado na base das ondas, reorganizar-me em camadas, acabar cuspida na areia como um novo ser feito de seixos e conchas partidas. Cheguei a ler um dia que a morte por afogamento era a mais doce.

Trouxe uma garrafa de aguardente de medronho para o meu avô. Para vocês, tentei trazer uma história bonita, contada a tinta azul nas páginas de um moleskine cheio de areia, mas gastei os últimos trocos numa tarte de batata doce. Arranjei-vos então esta outra história, a minha, a que se vai contando.

 

S. White

despesadiaria às 08:31
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