Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

 

Para a Ana Rita

 

Vida interior

 

Se eu não estivesse tão feliz, não me tinha esquecido que era domingo, não tinha posto o lixo lá fora, os cães não teriam revirado o conteúdo do saco, o passeio não teria ficado pegajoso da feijoada que deitei fora e eu não teria escorregado e caído nas profundezas da minha miséria, atestada por toda a santa alma de bata. A felicidade não compensa, minha querida, mais vale vestir o pijama do avesso e esperar que chova. O que o universo tenciona fazer comigo, sei-o desde que a Anita declamou uma página do meu diário. Nunca mais tive um sono descansado na vida, eu, o Júlio, o Tiago, o César, o Daniel, o Joaquim, estás a ver, claro, que eu nunca gostei de me desgraçar sozinha. Eu não vou em bruxedos ou cantigas, mas algo está podre num reino qualquer à tua escolha, e não falo do leite que se adiantou esta manhã. Antigamente, tínhamos relógios de pêndulo no coração da sala, cumpriam, imponentes e exactos, a sua matemática interior; a cada hora, mais uma badalada; uma coisa como uma certeza, que não nos deixava distrair-nos da vida. Quem é que se orienta sem um badalo? Sabes o que me disse a Benedita com aquela voz de reco-reco, que Deus a parta e me condene, que a salvação já nada pode? A Benedita disse-me que começou a ouvir a vizinha de baixo. Não é isso, tu sabes, começou a ouvi-la, como se estivesse ao seu lado. Comendo, levantando-se do sofá, preparando o banho. E imagina tu que a Benedita não disse isto como quem nos informa que ganhou uma super audição, que também era o que mais faltava descobrir-se agora que a desgraçada que teve os filhos por mim com o homem que me pertencia é extraterrestre, não, ela disse isso com um espanto macabro nos olhos, uma coisa como nunca vi, uma surpresa maior para ela do que para qualquer outra alma. Agora diz-me se não é de perder os pêlos dos braços todos de uma vez. A mim cheira-me a coisa que há-de vir. E ainda vou ser eu a vê-la primeiro que toda a gente.

 

– Não achas, Adelaide?

– Sim, Aida.

 

Menina Limão

despesadiaria às 16:20
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