Quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

 

Caderno de costura, 06

 

Uma choina de néons em baixo de uma parede: o bar. Mas não é no bar que me esperam. É nesse caixote, ali, do outro lado da rua. No alto, um jorro lateral de luz que afirma cada tijolo como alguma coisa viva e domada. As curvas, numa necessidade de riqueza mais que de resolução, conferem ao Palazzo D'Annunzio esse aspecto pastoso de basílica cortada pelo meio. No fundo é um golem barroco, uma estátua de gesso com peruca. Lá dentro, riscados por reflexos opacos, os móveis reagem com estranheza à situação, contraem-se, como um leve recuo de mandíbula. Debaixo da claridade aderente de um pequeno reflector, dois gajos pintados a óleo na parede: estão sentados em degraus, a tocar punheta um para o outro, com uma fatia cítrica de lua minguante a pairar acima deles. Que figura triste. Espero que acabem a girar bem devagarinho num espeto, no fundo dos infernos. Na outra parede, três bailarinas gordas a rodopiar numa ciranda. Muito bonito: corpos que são apenas círculos, num movimento invertido de ponteiros. Desço um tampo de mármore. À esquerda, um coqueiro com ares de Arlequim de Picasso foi desenhado na porta do WC. O bafo quase equatorial de merda recém-evacuada entra nos pulmões como a mão quando se enfia numa luva de borracha. Depois de evitar os fios telefónicos que pendem lamentavelmente do tecto como uma cabeleira rígida recoberta de sujeira, continuo pelo corredor. Tenho a impressão de estar a mergulhar numa terrina de consomê morna. É como entrar num sono de Seconal - que é o mesmo que ser como um olho que sobe e que, esperando o cheio, encontra apenas o lazer e o vazio.

 

Peor

despesadiaria às 01:47
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