Sábado, 27 de Setembro de 2014

 

As ideações suícidas de Laura Fontinha (miniconto / megapost)

 

Laura Fontinha, residente no número 14 da Rua da Alegria, queria matar-se. A ideia surgiu-lhe na tarde ociosa do segundo domingo de Setembro, quando a televisão se escangalhou. Em vez das notas nítidas das personagens que se bamboleavam pelo ecrã, o LCD de trinta e duas polegadas emitia sons roucos, mergulhados em expetoração elétrica; os trinados histéricos das apresentadoras eram mascarados por uma grave laringite tecnológica, maleita virulenta que tolhia as correntes nos buffers. Primeiro, Laura Fontinha culpou a mãe e o descuido com que varria o plástico brilhante do televisor, auxiliada por um paninho do pó encharcado em Pronto, mas o exercício esgotou-se assim que o botão vermelho do comando foi premido e a escuridão muda engoliu as imagens da festa anual em honra das maçãs Bravo Esmolfe. Aí, mirando distraída as partículas de poeira que vogavam à luz da janela da sala, Laura Fontinha recostou-se no sofá de pele. Deixou-se escorregar como peso morto numa encosta, inundando a sala de barulhos cómicos semelhantes a manifestações flatulentas. Foi então que se lembrou da mais óbvia alternativa à programação gasta de fim-de-semana:

— Vou matar-me.

Levantou-se num pulo e agarrou no computador portátil que hibernava, fechado sobre a mesinha da sala, ao lado de um vaso redondo de peónias plásticas com as pétalas encardidas e de um pequeno buda obeso. Laura Fontinha tivera aulas de inglês desde os sete anos, vira todas as temporadas de Sex and the City sem legendas e reservara na estante do quarto uma prateleira só para os livros da Danielle Steel, todos na língua em que a autora os escrevera. Tamanha experiência, apregoada com orgulho e posta em prática sempre que via turistas perdidos na rua, seria equivalente à aprovação no TOEFL com direito a louvores e a uma carta da Rainha; por isso, e achando a morte um assunto internacional, na barra de pesquisa do Google, escreveu

how to kill myself

Em meio segundo, o sempre solícito Google devolveu-lhe três milhões, oitocentos e vinte mil resultados; Laura Fontinha achou-se diante uma temática polémica, com direito a páginas especializadas e fóruns de discussão. Fez deslizar a barra lateral do navegador até chegar à base da página, onde encontrou as pesquisas relacionadas listadas a azul; sem surpresa, antes dela outras pessoas investigaram o mesmo assunto, afunilando o raio de ação ao acrescentar palavras chave. A comunidade dos que ponderam pôr fim à sua existência, além de internacional, como bem previra Laura Fontinha, ainda se serve de um sentido crítico singular que a leva a aprofundar a arte nas suas várias disciplinas: facas, comprimidos, sacos de plástico ou cordas enquanto métodos; dor, rapidez ou facilidade enquanto parâmetros de avaliação do processo. Abraçada pelo torpor ocioso do fim-de-semana, Laura Fontinha fez as suas opções, posicionou o cursor sobre a frase

how to kill myself easily

*click*

e desta vez o Google recolheu quatro milhões seiscentos e dez mil resultados diante dos seus olhos esverdeados e muito redondos, como moedas comemorativas de uma efeméride obscura, esquecidas numa gaveta e contaminadas de verdete. O primeiro levava-a até à página da Wikipedia sobre métodos de suicídio: uma página longa e bem organizada, dividida em vinte e quatro subcapítulos suportados por cento e onze referências bibliográficas; da lista constavam artigos publicados pela editora do velho barbudo debaixo do olmo negro— Laura Fontinha conhecia-a dos olhares enviesados que lançava aos computadores dos amigos mais instruídos. Impressionada é um adjetivo dramático e vivo que raramente se usa para descrever Laura Fontinha, a rainha apática dos mares de águas chocas. Que a mãe soubesse — e era a mãe a pessoa que melhor a conhecia —, só em duas ocasiões as vistas esféricas da filha se tinham arregalado ainda mais, num espanto assombrado, incapaz de ser contido: quando a menarca lhe tingiu as cuequinhas de corrimento acastanhado e quando descobriu a origem do barulho fantasmagórico e repetitivo, como uma portada solta à mercê do vento numa noite de tempestade, que afinal vinha do quarto da mãe e do padrasto. A terceira ocasião digna de uma perturbação de espírito desta natureza seria o momento no qual Laura Fontinha percebeu que o suicídio é uma ciência.

Linhas de informação sucediam-se; as conclusões construíam-se através do rearranjo das que foram reunidas até então, como um baralho de cartas preso num movimento perpétuo. Com mais cliques, Laura Fontinha visitou outras páginas e leu os testemunhos de quem se tentara matar, mas sobrevivera para encher os fóruns de queixumes e alimentar o mercado dos livros de autoajuda. Encontrou uma tabela onde todos os métodos de suicídio estavam organizados em função da sua eficácia, parâmetro que se revelara o mais importante de todos. Os lugares cimeiros da tabela eram ocupados pelo tiro nos miolos e o famoso cianeto, sendo que o primeiro combinava a eficácia com a rapidez. Laura Fontinha não estava disposta a gastar muito tempo com isto do suicídio, tal como não conseguia oferecer muito tempo a qualquer outra atividade: chegada a meio de uma tarefa, um cansaço mental assolava-a através de espasmos luminosos e náuseas, deixando-a agarrada à fronte latejante e obrigada a desistir do que estava a fazer. Uma bala que lhe perfurasse os hemisférios seria suficientemente rápida, antecipando-se ao enfado fisiológico.

Laura Fontinha tinha agora uma nova missão em mãos: arranjar uma arma. Abriu um novo separador no navegador e escreveu na barra de pesquisa do Google

how to get a gun

Esmiuçando a rede com rapidez sôfrega, o motor de busca devolveu-lhe cinquenta e um milhões e duzentos mil resultados, mais a costumeira lista de pesquisas relacionadas sugerindo abordagens mais cinzentas e fora da lei. A fartura de informação desorientou Laura Fontinha, que abanou a cabeça como se afastasse uma varejeira mole; com o movimento, as cartas foram de novo baralhadas e no pensamento pintou-se o retrato delgado de Verónica “Nicas” Lúcio, amiga de longa data que se mudara para a Brandoa há três anos, prenha de um mecânico mulato. Desde essa altura, as amigas telefonavam-se uma à outra nos aniversários, na Páscoa e no Natal, discutindo os livros da Jody Picoult, os benefícios da amamentação até à puberdade e os tiroteios a que Verónica “Nicas” Lúcio assistia da sua varanda, devorando tremoços e atirando as cascas aos dealers acossados.

Os refegos do buda velavam o Samsung Galaxy S4 de Laura Fontinha, cuja bateria se cansava em apenas meio dia.

Beep…beep…beep…

— ‘Tou?

— Nicas, é a Laura.

— Ai ‘miga, que saudades! Como estás?

— Bem, obrigada. E vocês aí?

— Estamos todos bem, graças a Deus.

— Nicas? Quero perguntar-te uma coisa.

— Diz, querida.

— Arranjas-me uma pistola?

Silêncio.

— Para que é que tu queres uma pistola?

— Para me matar.

Silêncio.

— Para que é que tu te queres matar?

— Olha, estava aqui a ver as festas do Bravo Esmolfe, no primeiro canal, e de repente a televisão começou a ficar com um som cada vez mais rouco, até ao ponto de eu deixar de perceber o que se estava a dizer e das músicas me parecerem todas iguais às do mp3 barulhento do meu meio-irmão.

— É pá, que cena!

— Pois, e agora estou aqui em casa, num domingo à tarde, sem nada para fazer. Decidi matar-me.

— Não tens comprimidos em casa? Toma uma caixa de Benurons ou assim.

Verónica “Nicas” Lúcio, sessenta e dois quilos e quatrocentas gramas de gente, vivia por impulso. As suas decisões manifestavam-se no golpe de asa de um colibri, com a genica e impetuosidade que move um pequeno sapo de nenúfar em nenúfar. A noção de planeamento era-lhe tão estranha que nem punha a hipótese de esta existir na personalidade das outras pessoas. Laura Fontinha respondeu à questão com uma mescla de frustração e condescendência.

— Segundo o site SuicideHelpers, os medicamentos que são comercializados hoje em dia já estão feitos para tu não morreres de overdose, independentemente do número de comprimidos que tomares. Outro site, o SuicideTipsForLosers, diz o mesmo. Eu pesquisei o assunto, Nicas.

— Uma corda, não arranjas uma corda? Ou então enforca-te nos cortinados.

— Verónica, eu pesquisei! As pessoas que são enforcadas cagam-se todas, sabias? Pois. Eu não quero cagar-me toda no chão da sala.

— Ó Laurinha, eu tenho muita pena, mas não te consigo arranjar uma arma.

— Nem falando com o teu vizinho? Aquele matulão das tatuagens.

— O Jackson Lucas? Ai, nem me digas nada, foi uma ribaldaria neste prédio por causa dele… Está na choldra, querida. Esfaqueou um tipo qualquer num bar — ouviu-se um suspiro do outro lado da linha. — Não consigo fazer nada por ti, ‘miga. O Jackson era o único gandulo com o qual eu podia contar. Mas olha lá, já experimentaste arranjar a televisão?

— Eu não percebo nada de televisões, Nicas.

— Vê pelo menos se os cabos estão bem ligados. Ou espera… desligaste a televisão?

— Sim.

— Então liga-a outra vez. É assim que se resolvem os problemas das televisões e dos telemóveis e dos computadores: desligar e voltar a ligar.

Certa de que nada mais havia a tirar daquela conversa, Laura Fontinha despediu-se de Verónica “Nicas” Lúcio com desejos de boa sorte e saúde para ela, o namorado mecânico e o filho, muitos beijinhos e a sugestão de uma visita que, como em tantas outras vezes, não se realizaria. Pousando o telemóvel no sofá, Laura Fontinha levantou-se e ficou de pé frente ao televisor, segurando na mão o comando em forma de blister. Carregou no botão vermelho: os cristais líquidos cintilaram as suas mil cores e os sons nítidos, rompendo o filtro de ronha que cobrira a televisão três quartos de hora antes, reverberaram pela sala como uma sinfonia de copos de cristal manipulados por dedos húmidos. Afinal, estava tudo bem, pensou Laura Fontinha. Fechou o computador e voltou a pousá-lo sob a sombra das peónias desgastadas. Morrer seria apenas mais um projeto adiado.

 

S. White

despesadiaria às 09:00
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