Segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

 

Vivo num quarto arrendado a uma família com brasão (físico, na parede, não só no registo nobiliárquico do reino) e com dois LL consecutivos num dos apelidos. Têm dois filhos da minha idade, sem sintomas geracionais aparentes de endogamia. O pai, extraordinariamente mais velho, é tratado pela esposa por Senhor Conde, e por eles por Senhor Pai (não brinco). Fui-lhe apresentado no primeiro dia, e não voltámos a falar.

O meu quarto fica nas traseiras, junto à enorme cozinha. Casa térrea, no centro da cidade, tem um pequeno jardim com alguns bancos de pedra, uns cobertos de musgo, outros por trepadeiras viçosas, a armação de um baloiço (trepadeiras viçosas), e quatro árvores de aspecto antigo e curvado, o que se esperaria das oliveiras mas não do pessegueiro e da nespereira, que parecem ter nascido assim doentes.

Do quarto à sala, percurso que nunca fiz de dia, é necessário atravessar um corredor com seis portas fechadas numa das paredes. Lá estão os quatro, desligam o som da televisão e olham-me expectantes. Foram sempre pequenos problemas que me levaram a interrompê-los: o ninho de moscas debaixo da cama no primeiro mês; a invasão de ratos no segundo; a comunidade de baratas no terceiro; e o cão vadio que se veio deitar na cozinha, no quarto. A porta que dá para o jardim não complica de facto a entrada de um animal, mas, ainda assim, esperava de mais alguém alguma surpresa por um cão adulto sem coleira estar a dormir dentro de casa. Nada: adoptaram-no e baptizaram-no Robespierre. A partir daí não voltei a precisar de ajuda, ou preferi fazer por isso, embora a senhora me convide amiúde para passar o serão com eles, o que recuso sempre com amável cortesia. A nossa relação é feita disto, aliás: são-me propostas algumas simpatias (uma ceia, lavar a minha roupa, companhia para a missa) que procuro declinar da forma menos ofensiva possível.

Vê-se que o dinheiro é coisa do passado nesta família, apesar da casa, títulos, extensão e quantidade dos apelidos, dos castiçais de prata, das pesadas molduras nas paredes, entre outros sinais de sentido equivalente, mas sou recordado com frequência de que apenas por profunda amizade à minha avó - não por necessidade - me arrendam o quartinho com casa de banho, e só me é permitido pagar os simbólicos cento e noventa euros mensais para não me ser privada a dignidade.

A verdade é que apesar de bem-educado e gentil, de ter emprego estável e decente, de pagar os impostos e a renda nos prazos devidos, de chegar quase sempre antes da hora de jantar, acordar cedo mesmo aos fins-de-semana, de nunca ter levado mulheres para casa, não beber vinho nem coisa pior, apesar de ter estudos, e ler - assim o tempo me permite - os clássicos, apesar de tudo (era aqui que eu queria chegar), sinto-me julgado como a peça indesejável, embora tolerada, de algo maior de que aparentemente faço parte. Mas por respeito à minha avó, nada disto vem à baila.

 

Gouveia

despesadiaria às 09:45
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