Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

 

Está (quem?) estendido no banco (de “jardim”) à beira do lago de betão, de onde olha em estupor para as latas de cerveja e refrigerantes que flutuam na água purificada pela chuva de Grande Planície Europeia. Quando dá pela minha chegada, sorri sem conteúdo e levanta a mão (esquerda) que, por estar pendurada, permanece até então ausente do meu campo de visão. Com ela segura uma pistola da qual sai, na minha direção, um dardo com uma ventosa na ponta que me acerta em cheio na testa e cai aos meus pés. Explica-me por telepatia que não tem mais dardos, que perdeu os outros (nove) que vinham dentro da embalagem num acidente que só pode ser explicado recorrendo a palavras. Que, se quero voltar a ser alvejado, terei que lhe devolver aquele. Agacho-me, apanho o pedaço de plástico, com o qual os meus dedos decidem brincar enquanto me levanto, e devolvo-lho. Introduz o dardo no cano da pistola (dardo e pistola: azuis) até fazer clique, aponta na direção da minha cabeça, mas no último momento estica o braço na direcção do lago e puxa o gatilho. Pelo ruído, atinge uma das latas, que rola na água, suponho, enquanto o dardo revolteia e respinga antes de ele próprio também se deixar flutuar, demasiado distante da margem para ser recuperado.

 

Como tinha fechado os olhos na expectativa do impacto, já só vejo o dardo perdido na anarquia das sobras. A lata ainda voga através das nuvens refletidas, abrandando até ao momento em que há de estacionar. Ele (não esquecer: quem?) regressa à exata posição em que estava no início (de quê?), com as feições mortas e o braço (esquerdo) pendente. Uma faísca de entendimento sobe-me do peito, onde nasce, aos olhos, de onde se recusa a sair. Tento encontrar a vista no mesmo ponto em que a dele se perde, mas não tenho como saber da minha pontaria. Desisto, embora seja difícil tirar essa conclusão a partir do meu gesto, que não torna evidente o que passa pela minha cabeça naquele momento. Adeus, penso, enquanto dou o primeiro passo em direção a um local fora do enquadramento onde irei comer arroz (agulha) de polvo. Ele não responde, imagino que por não haver um som no ambiente capaz de mascarar a voz que, em todos estes anos (quantos?), nunca lhe conheci. Ainda ouço o som da pistola de plástico a cair no pavimento, sinal de que acaba de ali deixar o seu fantasma, assim inutilizando o uso do banco por parte de nacionais e de estrangeiros com autorização de residência. Nunca mais nos veremos a não ser através de mensagens escritas, quase todas truncadas no limite de carateres imposto pelo protocolo.



E.

despesadiaria às 02:51
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