Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

 

Resiste, ainda, ao motor do progresso, uma pequena barbearia, na Rua Direita. O proprietário é um homem que conheço desde muito novo - era o barbeiro do meu avô e do meu amigo Soeiro. Trata-se de uma pequena loja, um edifício isolado, com uma decoração modesta, ignorada pelas marcas de cosméticos. Pelas paredes permanecem uns posters do Águia, um clube que há mais de 50 anos deu origem ao União, juntando-se ao Operário e à Ginástica. A clientela resume-se a septuagenários debilitados e a uma rapaziada que, tal como eu, não consegue conceber o seu desaparecimento. Quando ontem lá entrei, o homem estava a terminar um serviço com o velho Campainhas. Recebeu-me, como sempre, a perguntar pelos toiros da última corrida de Setembro mas, não pude deixar de estranhar o som raro que saía do rádio pousado na prateleira junto da porta das traseiras. O Zé Careca, como é conhecido, apesar da sua farta cabeleira branca, tem por costume ouvir a Rádio Amália e, por isso, habituamo-nos ao corte do pêlo ao som de um fadinho maroto. Porém, desta vez, a música era outra. Não demorei a conhecer a voz de Nat King Cole e, confesso, também não me surpreendi por ser ele o escolhido. Cantava as canções latinas, com aquele sotaque ternurento que o Zé Careca ia trautiando com uma frase ou outra. Foi então que me disse "O Nat King Cole". "Reparei" - respondi -  "e até estranhei não estar nos fados". "Não... às vezes, ao fim da tarde, ponho este. Comprei-o no outro dia. Tive em disco, há muitos anos. Agora comprei o CD." A conversa prosseguiu animada. Lembrei-lhe que era Dia Internacional da Música. Falámos do Júlio Iglesias, do Roberto Carlos, do Tony de Matos e, um pouco a medo, mencionei Nelson Ned, que ele aceitou entusiasmado. Contou-me dos seus hábitos, de como se deita a ouvir a rádio, com os auriculares porque a mulher "não gosta de música"; de como acorda e a primeira coisa que faz é ligar o aparelho; de como ao Domingo se senta no sofá e ali fica a ouvir os discos que foi coleccionando ao longo dos seus dias. Disse-o com a solenidade de quem guarda um castelo e isso emocionou-me. Acompanhou-me à porta e despediu-se de mim. Quando eu já seguia o meu caminho, chamou-me e disse num tom irónico "E hoje também é o dia do idoso". 

jorge c

despesadiaria às 09:58
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