Sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

 

Especialista

 

- Na verdade, é um excelentíssimo filho da puta…

A frase persiste no ecrã branco, já a apagou 15 vezes e dá pelos dedos a escrevê-la de novo, como se a sua vontade ou falta dela não fossem tidas nem achadas para o caso. “Que merda”, pensa. Quinze anos de carreira em suspenso por não conseguir escrever um mísero perfil de 1500 caracteres sobre Radomilo Takitango, o novo avançado do Crotemburgo. Um puto de 22 anos, quatro de reformatório, feitio difícil mas muito talento, dizem os medíocres comentadores que habitam nas televisões. Mas Altério Ferubal sabe que Radomilo nunca passará de ser um excelentíssimo filho da puta e não consegue escrever coisa diferente.

Vai à varanda fumar um cigarro. Nos últimos tempos tem relembrado mentalmente todo o seu percurso. O puto chato que não jogava nada mas lia religiosamente os jornais desportivos; o adolescente que sabia de cor os plantéis da 4ª Divisão Zona Sudoeste de Cima; o estranho caso do leitor desconhecido que enviou uma crónica o director do jornal a explicar porque é que o 4-4-2 de Eviro Stálio era um erro profundo. A recordação de ter sido a primeira vez que o jornal publicou um texto sem saber ao certo quem era o autor. Um estrondo tão grande que o próprio Eviro se demitiu duas semanas depois e emigrou para a Farabénia, onde nunca ganhou nada. Passados dois meses, Altério Ferubal estava no gabinete ao fundo da redacção.

A enciclopédia viva, o crítico feroz, o homem mais temido por jogadores, treinadores, presidentes e pela senhora da limpeza, encarregue de lhe esvaziar cinzeiros e apagar os vestígios de uma existência pouco compatível com sabões, detergentes ou lenços de papel.

E o ecrã permanece em branco, com os mesmos caracteres filhos da puta a insistirem na verdade inconveniente. Foi há coisa de dois meses que Altério descobriu que estava farto de futebol. Farto ao ponto de se agoniar perante a visão do relvado. Farto ao ponto de ter cancelado o serviço de televisão por cabo. Farto ao ponto de ter começado a ouvir obsessivamente os concertos de Esteltin Koporev para clarinete e violino.

E foi por isso que Radomilo Takitango ouviu a campainha da porta tocar a meio da noite. Estranhou, gritou o mais ameaçador “quem és tu!” que conseguiu congeminar, estremeceu quando ouviu a resposta: “Altério Ferubal, preciso de saber se ainda tens contactos nas Ilhas Surdomelas”.

Cinco meses depois, Radomilo ganhou a bota de ouro. Não colheram os protestos dos defesas Arrebatinho e Falaquéquio, rivais de clubes adversários e súbditos de um mesmo cirurgião que lhes prometeu a cura para o que resultou dos inadvertidos choques a piton de aço com a jovem estrela. Radomilo agradeceu o troféu a “um gordo que a esta hora deve estar a beber copos na praia”. Quase todos pensaram que falava do pai - morto de cirrose há dias - e não da lenda sumida que, desde há várias semanas, enchia manchetes de jornais, os cornos dos tipos da esquadra de investigação criminal e o temperamento irrascível de um director de jornal sem respostas para os leitores.

Ontem, o maestro da Orquestra Metropolitana Central  recebeu uma estranha carta de um “estudioso de partituras” que denunciava a falsa virtude do novo solista. Ainda não conseguiu deixar de pensar no que leu…

 

DoVale

despesadiaria às 10:33
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