Domingo, 5 de Outubro de 2014

 

II

 

Ao longe, uma figura arredondada oscila na rebentação das ondas. Naquela distância, e com a imprecisão ocular de um canivete que esboroa um pedaço de madeira bichoso, não é possível discernir a identidade daquele objecto ou ser que teima em não naufragar. Sobre a pele que reveste os joelhos, as filigranas de areia começam a tecer o seu manto arquitectural, uma cidade futurista, o recobro de outra, desaparecida, entre ambas, uma caverna de centopeias mínimas, luminescentes. Levanta-se, ajeita o vestido que não acaba além da areia tatuada, desce a duna como um gato doméstico que fareja, de barriga cheia, a presa: não é a fome que a move, mas um desejo primordial de (re)conhecimento. Os pés descalços traçam a linha assimétrica do caminho que vai deixando atrás de si, de repente, uma vontade enorme, gigante, avassaladora, incontornável, de urinar. Pára, olha em redor, ninguém à vista, baixa as cuecas, agacha-se e deixa escorrer um fio amarelado que forma uma nascente no segmento do areal onde parou e que esbrava caminho até ao rebordo do mar, desaguando exactamente no ponto onde aquela figura se movia. Levanta-se de novo, segue a rota traçada pelo que libertou, mas, no momento em que a inesperada vereda embate na coisa que ali estava, esta desaparece, evapora, liquidifica no mar ancião, o princípio de todas as coisas, de onde tudo vem e onde tudo chega.

 

gisandra

despesadiaria às 03:58
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