Segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

 

Caderno tropical - 08

 

A estrada que ameaçava desaparecer por completo debaixo do aguaceiro, apenas escorregou um pouco para a direita. O melhor é esperar outra coisa, ou então não esperar nada. Encavalado sobre um galho, sem agitar as pernas, simplesmente a observar os mosquitos, cheios de vento, a voarem de lanceta à frente e a espetarem a fundo onde quer que encontrem córregos subterrâneos de sangue. Os bacilos apalpam, perscrutam, afundam nas artérias. São como os crocodilos que umas vezes à esquerda, outras à direita, seguem ao sabor da corrente, nem mais depressa, nem mais devagar que ela. E os anticorpos, cheios de rodeios no seu retorno à terra, descem numa glande de vincos engomados para quebrarem-se contra os vibriões em arestas finas e terminais. A chuva parou. Já nos posso ver atirados contra uma dessas árvores mortas de que o rio está cheio. E a água, no pino do calor, é um intermediário entre o tecido e o creme: é que ela, aos poucos, foi esvaziada da velocidade adquirida nas quedas. Já a minha cabeça é um insecto gelatinoso semidevorado pelas folhas que baloiçam sem nervura nem pecíolo. Quinze dias atrás, eu podia dizer (e dizia): tudo que está à esquerda é pastagem; tudo que está à direita é lavoura. Mas agora a vida é como uma floresta inteira incapaz de fotossíntese. E a minha narina direita inchou como se lhe tivessem metido dois caralhos para dentro; a juntar a isso, engoli um pedaço de dente. A metade que ficou na mandíbula escora-se numa bolsa de pus. Só agora estou convencido: foram quatro dias a pé mal se tendo nas pernas. À mula de carga também: de tanto andar, os joelhos lhe entraram no corpo. Nesse labirinto de caramujos, todos sentem a mesma contradição. Longe de nos alargar as vistas, a ida do mato ao rio é como o fecho pontudo dessa correia complexa que nos prende por todos os lados, à maneira de uma apoteose que se vai a voar.

 

Peor

despesadiaria às 00:17
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