Quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

 

Felismina, ratazana do campo*

 

Foi a sua timidez selvagem, típica dos animais peçonhentos que fruem da abundância humana, que levou Felismina a esconder-se durante tanto tempo. Muito antes de a medir com os olhos, já a ratazana do campo anunciava a sua presença através de sacas de sarapilheira esburacadas.

— Temos ratos na garagem — disse o meu pai. Os sulcos fundos que a idade lhe gravou na testa, frutos de um só trejeito surpreendido, repetido como se um par de sobrancelhas erguidas respondesse às questões fraturantes da humanidade, encolheram-se ainda mais, formando linhas negras e graves. Os braços nos quais segurava a saca estenderam-se na minha direção; peguei na saca e tratei-a como a um lençol, sacudindo-a com genica e deixando o vento açoitá-la, enfuná-la primeiro de um lado e depois do outro. Os gestos enérgicos denunciaram meia dúzia de buracos redondos, do tamanho dos buracos das pesetas que as crianças usavam como pendentes.

Viver numa zona de caça municipal é ser acordada aos domingos por violentas saraivadas de tiros e encontrar os bichos que delas fogem refugiados no quintal. As odes raivosas são dirigidas à alegria com que as pequenas lebres saltitam entre o hipericão, largando bolinhas de excrementos nos trilhos empoeirados ou engasgando-se nas ciledónias, mas os gritos das carabinas despertam também os ratos, que fogem achando-se um pitéu de igual gabarito. Como o pudor lhes escasseia, é sem medo que se entalam nas frinchas do portão e se escondem entre os vasos das hortênsias, esperando que a pertinácia lhes devolva uma oportunidade. Quando a escuridão da garagem lhes é finalmente oferecida pela porta que alguém deixou apenas encostada, as patinhas animam-se; os membros felpudos tremem com esforço do sprint, a cauda, comprida e tingida de um rosa insalubre, vibra de antecipação; o focinho húmido funga freneticamente, como se vitima de uma constipação que em vez de mascarar o olfato, o agudiza. Assim são levados os roedores ao novo lar, cada parte do seu corpo é um componente, uma roda dentada bem oleada.

A vida de um rato na minha garagem começa calma e farta. A luz fluorescente só é ligada quando vamos buscar lenha, batatas ou nozes; quando chove muito e é necessário retirar água à piscina; quando queremos dar uma volta de mota e o amor que nos impõem ter à vida obriga a toda uma logística cheia de método, como se nos preparássemos para ir à Lua. Estes quandos dispõem-se sobre uma linha temporal extensa, cheia da paciência dos infinitos e das coisas eternas; são eventos suficientemente espaçados entre si para que os ratos se sintam seguros e petisquem os diferentes materiais que têm à disposição, desde a sarapilheira dentro da qual guardamos as pinhas à flanela tosca dos panos que cobrem as motas, protegendo-as do pó e dos papões que vivem no motor da piscina. No início, são regrados, tímidos na imensidão de tralha avulsa, mas depressa se acomodam às prateleiras metálicas, cheias de latas de tinta insertadas; às caixas de ferramentas e luvas grossas; aos baldes, às enxadas, ao carrinho de mão amarelo e verde que uso para ajudar o meu avô a trazer água da bomba. É aí, quando a rotina namora o descuido, que a sorte dos ratos muda. Aparecem as primeiras sacas esburacadas. Vou até à drogaria,

— Senhor Levi, tem veneno para ratos?

— Outra vez, menina?

ligo extraordinariamente a luz fluorescente e polvilho o chão quadriculado com veneno, como se enfeitasse um bolo com icing sugar.

Para a Felismina, acredito que o veneno tenha sido mesmo isso: o icing sugar sobre a sarapilhera, sobre a verga do cesto das nozes, sobre as caixas de cartão, e, pior que tudo — achei isto de um atrevimento supremo —, sobre uma das malas laterais mota.

— Olha para isto! — O meu pai estava tão lívido e as rugas submergiam com tal exuberância que a testa parecia o lombo riscado de uma zebra. Peguei na mala, repeti o que fizera com a saca de sarapilheira algumas semanas antes, mas não consegui ver de imediato os dois buraquinhos excêntricos. Tive que pousar a mala no granito da mesa da cozinha e estudá-la com atenção para descobrir as marcas daquela gula roaz.

A mala acabou por ser a última traquinice da Felismina. Não foi o veneno que a matou — se não o usou como doce, então engoliu-o como farinha e usou-o para fazer pão dentro do seu bucho monstruoso. A ratazana fugiu. Talvez tenha percebido que fora longe demais quando sentiu o tecido devidamente impermeabilizado nos dentes amarelados; ou talvez seja um espirito simples e livre, levado pelas suas rodas dentadas brilhantes e por desígnios panteístas. Após o nosso fugaz encontro, o primeiro e único, não apareceram mais buracos nas sacas de sarapilheira:

estava a estender roupa interior no pequeno estendal branco, em frente à porta da garagem, quando ouvi atrás de mim o barulho distinto de patinhas, o tic-tic-tic leve e despachado de um caminhar animalesco e furtivo. A curiosidade torceu-me o lombo e fiquei virada para trás, segurando nas mãos as cuequinhas pretas e o par de molas com que as prenderia ao arame metálico, juntando-as ao festival furta-cores de peças menores. No chão de calçada, procurei a origem do barulho. Numa fração de segundo, influenciada pelo choque, pensei tratar-se de um coelho, mas os coelhos saltam, não se arrastam pelo quintal apoiados em patas amorfas, subdesenvolvidas; os coelhos têm orelhas longas e verticais, não pequenos apêndices ovalados. Aquilo era uma ratazana, com o nariz cego e desorientado pelo excesso de estímulos naturais, desconhecidos no ambiente de garagem fechada ao qual se habituara. O lombo do bicho oscilava ao ritmo da passada — um ritmo lento e pesado, uma ilusão de arrastamento —, criando ondas que matizavam o pelo com várias tonalidades de cinzento. Mas a parte mais terrível era a cauda, uma longa e gorda minhoca, rosada como um recém nascido, espetada para trás como uma cobra retesada pelo perigo, quase do comprimento do corpo bem nutrido da ratazana e com a grossura do meu indicador.

A Felismina atravessou o quintal até se esconder debaixo do arbusto dos chuchus, uma planta enorme que comia todas as que estavam à volta com as suas folhas verdes, do tamanho de mãos abertas. Estendi as cuecas que segurava nas mãos sem me aperceber realmente de que o estava a fazer; só olhava para o enorme vegetal que engolia a enorme ratazana. Aproximei-me, afastei as folhas e procurei a bicha. Nunca mais a encontrei, mas fiz questão de lhe dar um nome.

 

*pelos vistos, aceito sugestões via Twitter. Talvez um dia responda àquela questão sobre o linóleo.

 

S. White

despesadiaria às 08:28
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