Sexta-feira, 2 de Maio de 2014

 

Jovem histriónica procura consolo

 

O diálogo com o espelho faz-se todos os dias pela mesma hora. Hoje, agradeço aos ovos maduros nos confins do meu ventre pela borbulha púbere que tenho na testa. Como é que te escondo, ó puta inflamada? Quero esquecer-me da adolescente que fui, mas estas fúrias ainda explodem na minha pele. Deixam dias de marcas que me recordam do pouco tempo que passou desde essa altura. Com dezasseis anos, tinha um cavalete armado no meio do quarto. Quando pintava e o pincel fugia para onde não devia, tapava os erros com mais tinta. Esta borbulha é um erro sobre o erro que eu vejo refletido no espelho. Vou buscar as tintas ao armário da casa-de-banho. Da bolsa preta que tiro, explode uma miscelânea de produtos: bases, corretores, máscaras. As minhas tintas. Eu sou uma tela pálida, com papos das insónias, sardas do sol, marcas das hormonas, tudo caminhos errados para onde o pincel não devia ter escapado.

Espremo o tubo da base, deixando uma ervilha bege nas costas da minha mão. Com um pincel farfalhudo, faço da ervilhinha uma poça de tinta para cobrir a minha palidez. Na infame borbulha, a mentira adensa-se num remendo de betume testado em beagles. Arrasto a base para o pescoço. Isto é arte. A pintura tem método: contornar, esbater, esfumar, repetir até à perfeição. Um pó acastanhado salienta a maçãs do rosto e mais não sei o quê - um dia soube o nome desses ossos todos, agora esqueci-me. O passo seguinte é a máscara. Levo a varinha coberta de líquido negro à base das minhas pestanas e agito-a no plano horizontal para deixar a pasta bem agarrada àqueles fios de pêlo. Depois puxo a varinha para cima, repetindo o processo até ter pestanas de boneca. Falta o batom. Na caixinha dos batons que tenho no quarto, há uma vintena de tubos cremosos (na caixa onde guardo as tintas acrílicas, o sortido de cores não é mais variado): cor-de-laranja e cor-de-rosa, tons arroxeados, lilás, mais todos os vermelhos que há num cesto de fruta. Os meus lábios transformam-se em sopranos espampanantes, a gritar por atenção.

A metamorfose termina dez minutos depois de olhar para o espelho pela primeira vez. Quem quiser, que fale dos seus gregos logo pela manhã, que coma os cereais com páginas de erudição em vez de leite, que fale de socialismo e de cinema francês. Eu maquilho-me. Rezo aos deuses das perfumarias antes de sair de casa. Nos quadros, a tinta luta com mais tinta. Eu, que deixei de pintar,  invento duelos do vazio com mais vazio. Isso também é arte. A arte da fuga.

 

S. White

despesadiaria às 08:20
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