Sexta-feira, 10 de Outubro de 2014

 

Depois de receber a encomenda de sexta-feira pelas sete da manhã o talhante entra no café ao lado, queixa-se que o seu fornecedor lhe traz sempre um pouco mais do que pediu, e avisa que quer uma bica e uma mini. Só um homem de barba branca, jornalista reformado a ler o matutino, parece reparar na ironia deste lamento particular. Para tal, foi obrigado a interromper uma história sobre um artista italiano que fechou as próprias fezes em pequenas latas cilíndricas nos anos sessenta, algumas das quais estariam agora a explodir - espectacularmente, imaginou - devido aos gases acumulados. Ao alternar entre estas duas ironias, conclui estar perante uma terceira: um ex-jornalista que talvez não saiba aplicar o conceito de ironia a uma situação prática. Fechou o jornal, claro. Decidiu ligar ao filho, escritor de romances com excelentes tiragens e múltiplas edições, a contar o sucedido, mas acabam em violenta discussão durante mais de duas horas sobre a utilidade do domínio da ironia nas respectivas profissões, ofendem-se bastante, e desligam. Convencido que quem não sabe reconhecer ironia não sabe reconhecer um furo, conclui que foi toda a vida um mau jornalista. Ainda que tenha feito tremer governos e cair administrações de bancos, nunca será tão bom como o filho que por seu lado, agora sobreconsciente, põe em causa o talento literário. Aposta mentalmente que Shakespeare nem quis saber destas merdas enquanto escrevia a mais irónica das tragédias, não sem duvidar se sequer está a interpretar correctamente Romeu e Julieta como exemplo de ironia. O pai, entretanto, apanhou um táxi para o aeroporto, e comprou bilhete para a Terceira e transfer para a Graciosa, de forma a pedir desculpa ao filho e passar lá uns dias há muito prometidos, mas em pleno Atlântico o avião cai e morrem todos, no preciso momento em que uma terrível explosão vulcânica de afundar civilizações mata em poucos minutos toda a população do grupo central dos Açores.

Dobrou o jornal, olhou para o talhante que entrava e saía em silêncio todos os dias, pagou a bica, e foi abrir o quiosque que comprou faz hoje 40 anos, exactamente no dia em que nascia o primeiro filho, pelo que convinha ligar-lhe.

 

Gouveia

despesadiaria às 13:21
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