Sábado, 3 de Maio de 2014

 

Entre dois baldios de terra compacta, a casa flutua. Não se sabe onde acaba, onde começa, é uma barriga cheia de crostas, aquosa, vegetal, repugnante. Na lateral, só os caixilhos e duas ou três semividraças. Pelos cantos da janela escorre um elemento fantasma, esponjoso. O mesmo que desce degrau a degrau, sem pressas, de uma escada agarrada à parede. Atrás, à direita, vejo duas árvores queimadas com a metade que restou do celeiro ao fundo. No balde de plástico junto à porta, uma água felpuda e desvitaminada, mistura de borracha e tisana. A coisa espuma também nos frisos da porta e ainda na ponta norte do telheiro. Deve ter sido um incêndio bonito. Pronto. As gajas saem. O que querem é me fazer falar. Dou uma boa olhada na mais alta, a que mantém a barretina caída sobre os olhos. São afro-polacas. Tenho uma carabina usada pela Wehrmacht para lhes vender. O mosquetão é autêntico, mas com a baioneta serrilhada, e não a lisa s84/98 do tipo 3. Peço licença. Entro. Uma bola de roupa esparrama-se pelo chão. A gaja com o duplo ésse tatuado ao punho passa por mim. Se der um passo mais em direção à parede, mostrará a saída, mas sem a ver. O corredor ainda está ali, meio pendurado. A outra sala já não se aguenta em pé. Vigas, tijolos, escada, persianas, tudo está a cair. E detrás do reposteiro: nada. A cozinha é vácuo, deve ter explodido umas quatro vezes, completamente. Seguimos, por um instante, a céu aberto, vaziamente. Nada mais de paredes, nada mais de nada. No último quarto, uma cama de barriga para baixo. E na parede, desenhados a carvão, dois leões vomitam os corpos que comeram. Ao lado da cama, o verniz tinha desaparecido e a cadeira, mole, achatada, desconjuntava-se num ninho de felpas. Em cima, no tecto, uma só pá do cata-vento, uma ratoeira aérea, desdentada, tediosamente a girar como uma manivela. A casa de banho está fechada. Pela porta esfuracada, contempláveis: as cuecas, amarradas duas a duas numa vareta. Voltamos ao corredor, cobertos de caliça, areia, cinzas. Descemos. A cave faz água, a casa toda vai afundar. Saltamos de tábua em tábua, somos pulgas-d'água. Na saleta ao lado, os tijolos que sobraram estão frouxos, suspensos. Todo o resto desaba. Desenrolo o cobertor. Elas olham para a espingarda. Olham para mim. Sabem que eu sou o gajo que enfia as putas no inferno a golpes de garfo. 

 

Peor

despesadiaria às 06:55
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