Quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

 

Dear life

 

Dolly pensou que se lanchasse talvez conseguisse empurrar para baixo o nó na garganta. Entrou no primeiro café que viu vazio e pediu uma sandes mista em pão de soja.

Nesse dia acordara tarde para diligências. Eram onze horas quando se levantou de um pulo, assustada com aquilo que lhe pareceu o som de uma janela a fechar-se. Transformada num desenho animado, fez uma vistoria à casa. Nenhum intruso. Depois, sentou-se na cama e pensou no que deveria fazer. O lógico seria começar o dia. Mas não estava convencida. Talvez fosse melhor voltar a deitar-se; havia saltado o ritual de auto-comiseração e culpabilidade que todos os dias a arrancava da cama para a urgência de cumprir a vida.

Adormeceu. Sonhou que era mordida por um cão. Sempre o mesmo pesadelo.

Às três da tarde, hora de Sartre, foi ver o rio. Mais valia deixar-se levar pela corrente. Fez uma lista mental de coisas para fazer até ao fim do dia. Daí a cinco anos teria tudo resolvido. Gostava tanto de riscar palavras em papel que devia ter ido para aspirante a escritora. Mas agora era tarde, já tinha dito a toda a gente que não fazia nada da vida.

Tirou os sapatos e foi molhar os pés no esterco do rio. Um repentino pensamento libertador invadiu-a. Um livro que nunca li, pensou. Mais uma para a lista.

 

Menina Limão

despesadiaria às 17:04
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