Quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

 

III

 

Disparada, a moeda ascende num salto rápido, reluz no vazio e volta a cair numa batida que deixa ecoar o tilintar do cobre. A palma de uma mão silencia-a, empurra-a escondida para debaixo da mesa, desaparece na sombra de um vinco. Do lado de fora, o deboche assiste de braços cruzados aos movimentos trôpegos, sorvem-se cigarros entreabrindo canções inteiras: da labareda ao fumo vai apenas o verso mais curto. O prenúncio do caos espreita o gesto nocturnal mais simples, as cabeças decepadas dos fantasmas entram em tumulto pelas portas, a vertigem vibra no pentagrama do real e um estertor de lágrimas evacua o bar. Silêncio. A moeda muda no chão, coberta da enxurrada da noite, sobrevive como uma carcaça da presença humana. O céu clareia com a chegada da aurora; os seus dedos não são róseos, mas de uma cor azeda. Inicia-se a materialização mais elementar: o furto da esperança e a equação da sucessão dos dias. Outros habitantes chegam, encontram a moeda incólume à espera de ser manuseada, transmudar-se de colo em colo, existir além de si mesma, ganhar. Na dança compassada do mundo, o que não perece não é feito de carne, mas de substâncias incapazes da metamorfose absoluta, derradeira.

 

gisandra

despesadiaria às 00:14
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