Sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

 

Caderno tropical - 09

 

O cotilhão recomeçou. Oiço o rumor de tachos que, ora mais, ora menos afastado, descreve-me a extensão do gargalo entre a cozinha e o quarto. O lençol enchumaça-se. E as minhas pernas, remexidas, adquirem um recorte picassiano, geométrico. A índia bate à porta. Vejo que misturou outra vez ao caldo aquelas nabiças que habitualmente não se comem. São para tirar a febre, ela diz. Mas a febre da malária é sempre (e apenas) um tumultuar de sombras incoerentemente esparsas a esta hora (seis e meia). É no final da tarde que enlanguescemos, ficamos quebradiços, e já não há meio de evitar que os calafrios nos guilhotinem de comprido. A verdade é que agora possuo oito ou nove sentidos. O da febre é um deles. Esta corta-me em fatias, rectas como tábuas, e deixa-me de tal modo friável que se entornar uma meia-de-leite depois das sete horas abro-me em mais de um metro de profundidade. Enfio o pé, ainda sem meia, pelo cano da bota. Sinto o fundo sem calosidade, como se para ali escoasse gota a gota o meu peso material. Apanho a t-shirt (a índia guarda na gaveta uma colecção de gaitas de beiços). Pela janela (que pouco me separa do exterior. Estou quase lá fora.), pedras espaçadas na lama e grandes matos afilados com uma coroa de bracinhos a transpor. Terminado um trecho, logo outro o substitui. Flores de azáleas montadas em estacas contra a cerca que contorna um quadrado de alfaces. Depois o que se enxerga é um cavalo erguido sobre três patas, a quarta vinha dobrada e atada à barriga; um grupo de crianças fazia-o avançar deste modo. As crianças (parecidas entre si e ao mesmo tempo muito diferentes) sentiam medo, e mais medo ainda sentia o animal (as guias moles batiam na garupa encharcando-se de espuma). Chupei um cigarro, até os perder de vista e de ouvido. Já me vejo entre as árvores, oscilando como um tonel mal escorado. Grandes e abauladas, tendo um nó ao meio, à maneira dos fundos de garrafa, elas estão todas aqui. Soltamo-nos de uma e logo outra nos apanha.

 

Peor

despesadiaria às 08:02
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