Domingo, 19 de Outubro de 2014

 

Línguas de perguntador (um first draft)

 

No intervalo da tarde, um acontecimento insólito reuniu a atenção de todos. O terreno alcatroado em volta do pré-fabricado verdoengo foi deixado aos seus buracos; as redes rasgadas das balizas do campo de futebol adejavam sombriamente, acompanhando o movimento cadenciado das azedas que nasciam do outro lado da vedação; os contornos dos quadrados da macaca, desenhados a giz colorido nas faixas de cimento remendado, foram esborratados pelos pés urgentes, e as pedrinhas ficaram esquecidas perto do céu. O pequeno chafariz à volta do qual se dispunham as salas de aula mirava o tumulto a leste, junto à casa-de-banho dos rapazes.

A porta de madeira escura abria para dentro; escancarada até à amplitude máxima, encolhia-se contra a parede verde, desaparecendo totalmente. Era como se a entrada para a casa-de-banho fosse apenas um arco, e do seu topo pendiam farrapos de verniz a baloiçar como pequenos fantasmas; mas os corpos curiosos dos meninos mais velhos e mais altos protegiam o que se passava lá dentro dos olhares dos que só agora começavam a aprender a ler.

Aproximei-me da confusão a medo. Com o estatuto que a carteira na sala do terceiro ano me oferecia, afastei os mais pequenos e fiz perguntas aos outros.

— É verdade?

O corpulento Rúben do quarto ano virou-se para a minha figura roliça. Manteve a boca sapuda fechada enquanto percorria mentalmente a lista de pessoas que gostava de aterrorizar com as suas botas de biqueira de aço. Quando verificou eu não fazia parte do rol de condenados, içou uma sobrancelha e disse, na sua voz púbere:

— Foi o maricas da tua turma.

— Não lhe chames isso — pedi. O Rúben comprimiu os lábios com força, transformando-os em dois bordos horizontais de tonalidade esbranquiçada. Eu sabia que fazia parte do grupo restrito de miúdos que podia pedir coisas ao Rúben. Ao contrário dos meus colegas, que se esconderam atemorizados no umbral da sala de aula quando viram os seus ombros dobrar a esquina pela primeira vez, eu não tinha medo do tamanho ou da idade do rapaz, ambos suficientes para que estivesse já nas carteiras da escola básica. Toquei-lhe levemente no braço encasacado para que me desse atenção. — Mas é mesmo verdade aquilo da língua?

As pupilas que me fitavam perderam-se num lodo acastanhado, dois palmos acima dos meus próprios olhos. Dos lábios anfibianos soltou-se um ruído gutural que eu soube reconhecer como uma gargalhada. O som era intimidante, mas eu sabia que o Rúben não conseguia rir de outra forma.

— É. Estou a ver tudo daqui — disse. Desviou os olhos das minhas bochechas avermelhadas e deixou-os entrar através do arco; tentei acompanhá-los dando pulinhos, na esperança de obter uma imagem, ainda que apenas de relance. Os olhos do tirano do recreio, semicerrados para formar severas linhas negras, mandavam-me estar quieta; eu ignorava-os, mas sentia que o desafio o divertia e por isso continuava a saltitar à sua esquerda, dando-lhe leves encontrões.

— Há muito sangue? Diz-me se há muito sangue!

— Tu és mesmo esquisita, miúda.

Vi o Rúben despir o casaco azul e deitá-lo ao chão, criando uma clareira em sua volta. Depois, colocou-se atrás de mim e envolveu a minha cintura com os braços; experimentei com espanto o abraço ao meu tronco, dilatado como um barril, onde o dente-de-leão estampado na camisola se deformava; as mãos do Rúben fechavam-se perto do meu umbigo, como a fivela de um cinto. Levantei voo sob os cocurutos dos meninos que construíam um tapume humano na fila da frente no espetáculo, mal contendo um gritinho histérico.

— És gorda — disse a cara espremida contra as minhas costas, — despacha-te a ver isso.

Do outro lado do arco via-se a parede rugosa que protegia os urinóis; nela encostava-se a figura quadriculada da dona Manuela, uma das auxiliares da escola. O rosto exangue observava o que se passava no lavatório, ao lado do arco, mas por dentro. De onde estava, conseguia ver a minha professora e a dona Leonor, a outra auxiliar, debruçadas sobre uma figurinha tremelicante cuja cabeça se enterrava na loiça branca, lembrando-me uma avestruz assustada. Um dos seus braços encolhia-se, apoiado nos bordos do lavatório; o outro perfilava-se junto ao corpo. A mão, a roçagar a ganga das calças como uma corda solta ao vento, segurava uma tesoura de bico redondo; o sangue refulgia nas suas lâminas, combinando a tonalidade escura com o plástico encarnado da pega.

— Ó — a minha boca, os meus olhos, tudo em mim tomou a forma do meu assombro, — o Rafael cortou mesmo a própria língua!

 

S. White

despesadiaria às 10:00
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