Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

 

Foi mais ou menos por acaso que Vítor e Hermeto se conheceram na cantina da faculdade. Mais ou menos porque na verdade já tinham ouvido falar muito um do outro pelos colegas, em termos pouco simpáticos quase sempre com malícia gozona. Pelas costas dos outros vejo as minhas era locução que conheciam bem e que já os tinha prevenido da eventualidade de eles próprios serem alvo das mesmas piadinhas, e que levou à inevitável conclusão de que teriam costas muito semelhantes, ou pelo menos muito compatíveis.

Começou então uma espécie de corte, inicialmente com trocas de olhares, que deram em acenos amigáveis, risinhos cúmplices das graças que um deles dissesse nas reuniões do conselho científico, e assim por diante, mas nunca mais do que isso durante meses. Portanto, foi, foi por acaso que começaram a conversar, e foi necessário chocarem com estrondo na cantina, com os respectivos tabuleiros pelo ar e depois pelo chão para se sentarem na mesma mesa. Poderiam ainda hoje andar nos olhares, acenos e risinhos furtivos, sem que algum dos dois tomasse qualquer iniciativa.

Desse dia em diante almoçaram sempre juntos e foram trocando impressões, como sempre fazem os cientistas, durante muito tempo até finalmente se sentirem confortáveis para contar os respectivos segredos. Fizeram-no não só por terem construído uma genuína amizade, mas porque perceberam ao fim de algumas refeições que existia do outro lado uma confidência que era pelo menos tão secreta e avassaladora como a sua. Eram viúvos, apesar de não terem ainda quarenta anos, e bastante inconformados com o facto, pelo que fizeram a única coisa que lhes pareceu natural. Lutar contra a inevitabilidade.

Para Vítor, a solução seria descobrir como trazer um cadáver de volta; para Hermeto, inventar forma de viajar no tempo e evitar o acidente estúpido que lhe levou a mulher. Vítor tinha o seu laboratório montado numas gigantescas águas furtadas, de pé direito altíssimo, num edifício devoluto que comprara para o efeito no topo da colina mais elevada da cidade; Hermeto montou a sua oficina num armazém, numa zona da doca onde apenas já havia carcaças de cargueiros. Foi um alívio contarem tudo, mas nem por isso se dispersaram das respectivas investigações, embora por vezes trocassem notas e sugestões à hora de almoço.

A vida de Vítor era mais complicada: roubar cadáveres, a mensalidade à Direcção Geral de Criogenia, a dependência de trovoadas, livrar-se dos corpos após a experiência (usava sempre exemplares magrinhos e baixos, não só para facilitar o transporte, mas porque obviamente conhecia de cor toda a ficção científica alusiva, nunca resistindo no entanto a instalar duas cavilhas nas têmporas dos sujeitos e a rapar-lhes o cabelo de lado e por trás, o que provocou histórico ataque de riso a Hermeto na sua primeira visita ao laboratório). Hermeto invejava esta lufa-lufa do amigo. Ainda que não trabalhasse menos, sentia que se pudesse também testar e falhar e testar e falhar, teria outra motivação. Mas confiava em si e no enorme quadro de giz que ocupava toda a parede.

Discutiam muito sobre universos paralelos, paradoxos, e multiversos (Hermeto defendia a existência de linhas temporais distintas, o que até nem eram boas notícias para o seu plano) ou sobre a persistência da mente, da memória e dos mecanismos de aprendizagem. Nos aniversários de cada um tiravam as únicas noites de folga do ano e, juntos, embebedavam-se violentamente. A passagem dos anos era o maior medo de Vítor, que embora soubesse que chegaria à solução mais tarde ou mais cedo, temia que a sua jovem mulher acordadasse para um velho de pele manchada e olheiras como pregas. Quando o ouvia falar assim, Hermeto punha em causa se Vítor realmente sabia o que era o amor ou se queria simplesmente voltar a ter a mulher a qualquer preço. Da sua parte - dizia-o sempre acusando - a única coisa que queria era voltar atrás e evitar aquela estúpida queda do escadote, devolver-lhe a vida e, provavelmente, nunca mais a ver depois disso. Não eram raros os anos em que esta discussão se tornava física, nem raras as manhãs seguintes em que as ressacas eram ilustradas por hematomas na região dos olhos ou lábios inchados, mas a ausência de memória a partir do terceiro copo salvava-lhes sempre a amizade. Ao pequeno-almoço tentavam lembrar-se que gorila lhes teria partido a cara daquela forma, divertiam-se com o que lhe teriam dito, brindavam com sumo de laranja à superioridade da mente sobre o corpo e voltavam ao trabalho por mais um ano.

 

Gouveia

despesadiaria às 09:54
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