Domingo, 26 de Outubro de 2014

 

IV

 

Um bando de pássaros encontra um ermo virgem à mercê das chuvas e dos ventos. Dispersam-se pelo monte, como um tecido leve, enegrecido, a cobrir a terra. Debicam os vestígios da sementeira da estação anterior e uma bota em curva, encarquilhada, humedecida de uso e de meteorologia, no meio da terra, é o altar de alguns. Por lá pousam, vigiando a curta distância os meneios dos restantes. Um verme assoma, Pessanha de seu nome, o cocuruto espreita e um bico trucida-o. As aves irrompem numa verticalidade histérica que se dirige a um ligeiro fosso. O desmame acaba, os pássaros regurgitam a carne, a acalmia do repasto chega com bicos amolecidos de tanto roçagar o osso. A descoberto, o cadáver em decomposição de um homem, o camponês das últimas estações. Ao lado, os óculos partidos, cobertos de um granito ocre e arremessados pelo alvoroço dos pássaros. As pernas dobradas, os braços abertos em extensão, medindo o território, diluindo-se no próprio mapa que tracejam. Ali caiu, enquanto a mulher debulhava a ceia e o esperava para, juntos, enterrarem a ninhada que uma gata tinha acabado de parir.

 

gisandra

despesadiaria às 21:31
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