Terça-feira, 28 de Outubro de 2014

 

 Caderno listrado – carretéis, 52

 

Uma mesa está no vão, junto à janela. Conto os cigarros na carteira. São doze. Para além do nada que isto representa, temos (eu e os outros dois gajos) mais trinta e cinco minutos para esvaziar a casa. O armário de cozinha, com uma das portas caída para fora, desafia que lhe venham fazer reparos. Ao lado, ancorada entre duas fasquias por pintar, uma chapa polida evapora desse corrimento reflectido, como se fora um rato morto erguido pelo rabo. As duas cadeiras, sem braços, fundas e moles, parecem desligadas da totalidade conexa das suas aparências; reivindicam qualquer coisa que não seja mais o estrato composto de ingredientes subtilíssimos de madeira, verniz e grampos. Abro um pouco mais a porta já aberta (as almofadas do sofá vão repetindo-se nos pedaços de espelho que um filete de papel dourado unia nos cantos). Visto por vidros grossos e empilhados, o fluxo de um objecto infiltra e se ajusta ao outro, remete a uma realidade oculta que drena para si toda a força do convívio forçado, quotidiano. Depois de alguns pagodes de madeira, empurro o divã pela escada (espécie de escultura pop, um vómito de cera que parece emitir fagulhas e ideal para ser lançado ao Tejo). As gavetas, semelhantes a ninhos de cobras cheios demais, derrubavam, das beiradas, longos cordões verdes de pano. E um incrível emaranhado de sininhos, alguns de prata, outros de chifre, presos num barbante acetinado, amarrava a papeleira em cima da qual, num jarro azul, abria-se um buquê de lápis 2Bs. E assim, envolto numa magia natural, cada músculo soma o cansaço ao cansaço que não é de um lugar nem de outro. Nulo, reabsorvido, é a tênue película de nada que separa o mundo cujo conjunto articulado é existência de ponta a ponta. (O alívio viria de onde, se pudesse vir de alguma coisa?) À saída um feixe de samambaias balança-se a uma janela, na ponta de um cabo de vassoura. Sento o rabo no pedaço que restou do muro. Os pés contraem-se, doridos. Buscam a fusão numa massa que lhes ofereça, paradoxalmente, singularidade. Por entre as grades traseiras do armazém, a tábua lisa da janela parece um borrão azul de esferográfica. E o prédio ao lado, meio sentado, meio erguido, sobe num espinhaço de rochas que tenta ficar de pé contra seu peso - com uma feição pesada e caseira indica, como se apontasse por trás de seu ombro, um outro prédio que fosse, ele sim, o verdadeiro. Ponho diante dos olhos o binóculo que apanhei sobre o sofá. Desbarrancado à direita, à esquerda o mundo eriça-se de contrafortes. Essas elevações secundárias, complanadas e intercaladas de calcário, arredondam, fracionadas e livres de anteparos, as linhas magras dos taludes a tombar em travessões sucessivos. Depois escalonam-se em círculos e estiram-se, boleadas, em muramentos numa desintegração contínua, ou nas grimpas em que se empilham as placas. E cruzam-se em talhados (pouco elevados mas inúmeros) a esgarçar a tênue capa de areia que as reveste.

 

Peor

despesadiaria às 01:52
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