Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

 

(lembrando a Rapariga das Maçãs)

 

G.,

 

Anteontem à tarde olhei para o céu como se fosse o sol e visse o meu reflexo no vidro embaciado por um longo banho. Quase senti as gotas quentes a desprenderem-se dos cachos escurecidos do meu cabelo e a caírem na curva das costas, aninhando-se naquele esconderijo húmido. Mergulhado no bafo das nuvens, o sol era um circulo de contornos difusos, pálido e desbotado; e tu dizias, em dias como esse, quando a luz era filtrada por um pano sujo e a ausência de reflexos me deixava ver claramente a cor dos teus olhos, que cada um tinha a solidão que merecia. Não sei se ainda pensas o mesmo; nós mudámos desde as tardes passadas a jogar matraquilhos sob o telheiro de batata frita que se estendia entre o bar e o pavilhão de ciências; pelo menos, tu cortaste o cabelinho à foda-se e esqueceste os golpes de cabeça que te ajudavam a afastar as mechas dos óculos; eu pintei o cabelo de fogo na véspera do baile de finalistas e depois, quando achei que já te tinhas esquecido de como descobrir os rastos da tinta acrílica nos meus caracóis, fiquei loira — agora tento recordar a minha cor, mas não consigo; e antes de um festival qualquer, cortei um palmo inteiro de cabelo.

Claro que há coisas que não mudam.

Continuo a ficar presa nos cubículos da casa de banho e já não há ninguém que me vá lá buscar. Aqui, as portas são de madeira e têm fechaduras que funcionam; as folgas entre a madeira e o chão são mais pequenas, e nas paredes riscadas não há amor, nem insultos, nem discussões sobre veganismo ou elegias aos fluídos corporais. Tudo é branco e por isso cada divisão micrométrica parece um salão vazio, tenho espaço para girar em torno dos meus eixos desalinhados; cada volta mais rápida que a anterior até o espírito se transformar num disco, rodopiando até o espaço fazer o pino e o tempo rasgar o ar com um mortal encarpado. Fechada no cubículo infinito, perguntei à loiça, ao piaçaba, ao caixote de tampões ensanguentados: é esta a solidão que eu mereço?, e em troca recebi a minha própria voz, seguida por um silêncio de tundra. Na parede à minha frente havia uma forma cilíndrica, tocada por um braço estendido. A forma servia para pendurar casacos ou malas, mas ontem vi-a expandir-se e transformar-se na tua cara; imaginei as oscilações da tua maçã de Adão enquanto mastigavas e engolias as respostas que fingias ter. Por pouco não esborratei a maquilhagem — sim, eu agora uso maquilhagem.

Decidi escrever-te para manter vivo o fantasma. Também bebi um bocado nesse dia — anteontem, quando a tua cara nasceu à minha frente — porque o álcool faz com que os teus contornos pareçam mais nítidos; esquecer-te seria a solidão que eu mereço: saber que sonhas ver-me arder no Inferno ainda é das poucas coisas que me impede de descer até lá.

 

I.

(S.White)

 

P.S.: Não deixei de comer maçãs.

despesadiaria às 08:44
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