Sábado, 1 de Novembro de 2014

 

Para determinadas pessoas, os primeiros dez minutos da manhã podem estragar um dia inteiro. Problemas com a água quente, problemas com o despertador, problemas com a torradeira, o leite que ferve para fora, um autocarro que se perde por segundos. Chamamos-lhe mau acordar. Para algumas pessoas, como Alexandre, ter de levantar-se e sair de casa estraga-lhe o dia, não são necessários pretextos acidentais. Mesmo assim, não deixou de ficar surpreendido quando, no eléctrico, perdeu a paciência e deu uma palmada na cabeça de uma senhora de alguma idade que, de costas para si, rosnava entredentes sentenças sobre a juventude por Alexandre não ter pedido desculpa quando lhe tocou na puta da malinha. Menos surpreendente foi o espectáculo que se seguiu, e uma paragem depois o guarda-freio sugeria-lhe que saísse. Com ele desceu um homem que o informou que a senhora com quem se tinha desentendido era a esposa do chefe da guarda. Alexandre suspirou fundo, amaldiçoou o seu humor matinal, a velha, a manhã, o dia, a sociedade, a vida, e tentou prever em que buraco se tinha enfiado.

Poucos dias depois, o Capitão Menano estava à porta de Alexandre para acertar contas. Durante este tempo pensou bem na forma de resolver a situação, e optou por não meter o quartel ao barulho, nem ir fardado, e muito menos armado. O Capitão Menano era um homem de evitar confrontos, como já tinha sido um jovem de evitar confrontos e uma criança de evitar confrontos, mas era suficientemente esperto para fazer crer à hierarquia que sabia resolvê-los sem recurso às últimas consequências. Pelo contrário, quase tudo no quartel ficava despachado à primeira ou segunda consequência. A verdade é que Menano era um cobardolas de primeira água, daqueles cuja função narrativa nos romances é a de sublinhar a valentia do protagonista. Mas o argumento da esposa era incontornável. Toda a gente do bairro viu ou ouviu de quem viu que um fedelho de vinte e tantos anos lhe tinha chegado a roupa ao pelo. Nós sabemos que não foi bem assim, em rigor chegou-lhe o cabelo ao couro, mas, fosse por força, fosse por liberdade de expressão, o rumor ia-se instalando com nuances diversas. Convinha que alguém agisse.

O Capitão Menano subiu as escadas do prédio ensaiando o que dizer a Alexandre a um passo que perdia velocidade a cada degrau. Pendurou o indicador no ar apontado à campaínha e respirou fundo mais do que uma vez. Quando Raquel abriu a porta, por pensar que era Alexandre que chegava, Menano ainda não tinha tocado. Raquel, namorada de Alexandre, era uma miúda por quem todo o bairro tinha justificado fraquinho, mas ninguém a tinha visto assim, com uma t-shirt branca que tapava o umbigo por uma unha negra, e umas cuecas de cintura baixa com padrão de stormtroopers. Menano supôs que as longas pernas de Raquel também ali estariam mas os seus olhos dispararam para cima o mais que pôde obrigá-los e, se já estava nervoso, a situação descontrolou-se, quis sair dali com urgência, mas quis muito menos ter de lá voltar, pelo que se resolveu pela Lei de Talião aplicada através de uma direita de punho fechado em cheio na cara de Raquel. Em cheio, enfim, em cheio planeava ele, mas depois de puxar o cotovelo atrás, e sendo Raquel muito mais alta, o impulso e inclinação desequilibraram-no e o soco apanhou ali meio lábio, meia bochecha, ainda assim o suficiente para a fazer cair para trás e lhe deixar solto um dos seus magníficos dentes brancos. E o Capitão Menano, que por pouco não caiu também, fugiu escadas abaixo.

 

(continua, em princípio)

 

Gouveia

despesadiaria às 08:15
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