Segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

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(micções)

 

Nunca pensei que fosse tão pesada. Já tinha manejado as caçadeiras do meu avô, em criança, mas nada que se compare à sensação que se experimenta ao segurar uma Walther de nove milímetros com uma só mão. Roubei-a ao pai da minha mulher, reformado da PSP, enquanto estava ocupado a grelhar sardinhas. No último Natal chamou-me à parte e disse: «Tenho lá em cima, no escritório, a minha arma. Quero que fiques a saber onde a guardo, pois nunca se sabe». Agradeci-lhe o gesto de confiança, e afiancei-lhe que, por certo, nunca iria ser necessária. Agora que a tenho encostada à têmpora direita reconheço como estava errado. Nada mais é tão necessário. Meter um balázio na cabeça é, nas minhas circunstâncias, o único acto de dignidade que me resta.

 A coisa mais bela que vi em toda a minha vida foi um campo de urtigas, que crescia livre e exuberantemente, como um manto verde sobre o leito de um deus, no interior de uma fábrica abandonada e já sem telhado. Ia-mos para lá fumar e ver revistas pornográficas às quartas à tarde, e masturbava-mos virados para a parede, envergonhados. Foi numa dessas tardes que me apercebi daquele manto de urtigas. O meu desejo imediato foi despir-me e deitar-me sobre ele, entregar-me totalmente, sentir com todos os poros, ocupar o vazio da minha alma. Não fui capaz. Acobardei-me naquele momento. No fundo, fui honesto comigo próprio. Incapaz para a acção, a maior nulidade do nosso tempo, quem sabe o maior filho da puta vivo. É isto o que eu sou.

A dúvida que me domina, neste momento, é se serei capaz. Procuro forças em memórias antigas. Lembro-me como me era fácil disparar sobre as rolas com as caçadeiras do meu avô. Recordo-me até do dia em que matei vários galináceos da tia Etelvina à pedrada. No entanto, como me é difícil premir agora o gatilho. Sinto cada vez mais o peso da Walther a produzir o seu efeito inexorável sobre o meu braço, como se os portões do Inferno tivessem sido forjados em chumbo maciço.

Ouço gritos e os passos de alguém que se dirige para aqui. Atiro a pistola para longe. Não posso escapar ao que sou.

 

nev

despesadiaria às 14:54
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