Quarta-feira, 5 de Novembro de 2014

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O padre Dionísio fechou a porta da Igreja às 14h28. Mais um domingo cumprido, sermão, comunhão, "ide na paz de Cristo" e eles foram, mas levaram a paz toda com eles porque o mar em cachão da alma de Dionísio há muito que não conhece calmaria.

O telefone toca. O ecrã do aparelho antiquado insiste-lhe pela terceira vez naquele dia que Ana F. exige explicações. E estas são devidas há quase três semanas. Dioníso não sabe se se apaixonou porque perdeu a fé ou se perdeu a fé porque se apaixonou. Há coisas que nem no pensamento se verbalizam, mas Dionísio sabia bem que o problema espiritual que o assombra é apenas um sucedâneo das vibrações da carne. 

Não resistira, era essa a verdade. Gostava de ir à cidade, de vez em quando, despir a batina e mergulhar anónimo nos bares onde fumava e bebia. Onde reparou nas pernas de Ana F., no decote de Ana F.. Onde deu por si na casa de banho a fazer....

 Paremos! há histórias que queimam só de as lembrarmos.

 E assim as viagens à cidade foram aumentando de cadência até chegar à quinzenal rotina de "olá amor" e dois dias de muita cama e pouca verdade. Ana F. toma-o por representante da indústria farmacêutica, muito viajado, coitado, sempre fora, nunca está ao fim-de-semana. Dionísio prometeu que, a partir do final de Novembro, terá nova função na empresa e até a hipótese de se estabelecer na cidade. 

Dionísio já não sabe qual a pior das mentiras nem a quem a disse. Entre fugir ficando e fugir partindo, a escolha parece-lhe inevitável. Não atende a chamada de Ana F., mas abre o menu dos contactos. D. Julião já se ilumina no ecrã antiquado - mas a bateria dá para cinco dias, não me venham com merdas de smartphones se nós aqui na serra nem sabemos que porra é essa do 3G!!!

 [o narrador pede desculpa pela linguagem, mas neste ponto já não vê o interesse em continuar a disfarçar o vernáculo que o padre Dionísio usa na intimidade]

 - Está, Vossa Excelência Reverendíssima...

- Ó Dionísio, se começas a conversa assim é porque vem aí problema

- O caso é sério senhor, posso aparecer em sua casa daqui a pouco?

 DoVale
despesadiaria às 10:28
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