Quinta-feira, 6 de Novembro de 2014

 

Nenhuma estrela

 

De onde me situo, um pouco de luz, alguma poeira, nenhuma estrela. Tenho os quarenta à porta, junto com a publicidade. Não pedi nada. Desde que desisti de limpar a casa, ficou difícil encontrar-me. Alpes de roupa por todo o lado. Há pelo menos dois anos que não consigo ver-me ao espelho na totalidade, surjo sempre entrecortado. Faz parte do plano. De vez em quando penso em sexo, mas não dessa forma. Não tenho o membro adormecido à espera do príncipe encantado. É uma questão de memória, o meu corpo ainda se lembra — e lembra-se bem. Óptimo, sou capaz de me fazer rir a mim próprio. É um princípio, e os princípios escasseiam. Neste ponto, em alto mar, olhando o horizonte, o que se grita é fim à vista. Não lamentes, é só um pouco grave. Mal ou bem, ainda tenho as mãos abertas, ainda me planto no meio do nada para me deixar inclinar pelo vento, ainda puxo de um papel para fingir que não me esqueço. Mas sei que estou quase lá, cada vez mais perto. Perto de encolher os ombros à finitude do universo.

 

Menina Limão

despesadiaria às 15:58
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014