Sexta-feira, 7 de Novembro de 2014

 

V

 

Era um bosque muito antigo, de caminhos estreitos e áridos onde já nem as ervas daninhas cresciam. Todos os dias, depois de um pequeno-almoço vigoroso de ensopado de boi, Actéon levava a sua matilha a esvaziar a raiva das entranhas. Em casa ficavam os seus açaimes, já lassos à força de tanto reterem as mandíbulas espumosas de ódio. A caça jorra vida pelo bosque, pululante e matinal, comendo para ser devorada. Enquanto um dos seus cães abocanha um veado pelo pescoço, Actéon, descontraidamente, puxa com os dedos a licra que o estava a oprimir a vazante. Ao fazer este gesto, apercebe-se de umas movimentações inabituais que vinham de uma clareira ali perto. Dirige-se até lá e vê Diana e umas amigas a chapinharem num riacho murcho, enchendo e esvaziando vasilhas, repetitivamente. Por se alegrar com aquilo que avista, aproxima-se cada vez mais, até ser descoberto por elas. Continuam no seu preceito, indiferentes ao olhar intruso. De repente, Diana parece ser surpreendida por uma memória antiga que logo se lhe enraiza no pensamento, reformulando a sua servidão à literatura. É nessa altura que cicia uma prece e Actéon se desumaniza, um quadrúpede com chifres, irmão do que tinha golfado sangue há uns instantes. No momento em que a sua consciência de homem morre, também o seu corpo cervídeo finda, dilacerado pela matilha servil que tinha trazido de casa.

 

gisandra

despesadiaria às 00:10
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014