Sábado, 8 de Novembro de 2014

 

A meio caminho entre o ponto para onde a sala a impelia e aquele para onde o quarto a puxava, ou seja, enfim, lá onde o senso comum a vê, a miúda acabou de entrançar um punho de linho na cintura. É agora uma abstracção recuada do espelho para avaliar o efeito. Eu - que há pouco ameaçava castigá-la em regime de pão seco - digo: quando cresceres, casarei contigo. Ela ri, e um ethos sedativo pula por cima da sua idade. Deixo-a cair no fundo dessa profecia. Ela sente no crânio o calor da minha palma. A minha beirada inteira vai bater contra suas arestas. O indefinido em carne e osso, a dizer frases inteiras sem uma única palavra, disparando cada projéctil através de uma nevoenta repugnância de pólvora salpicada de fagulhas: pescoço, peito, quadril, nessa ordem pavorosamente natural em que as coisas se ajeitam. Foi sempre assim: quem quer muito às miúdas, as quer contra os homens. A receita é simples: temos de confiar no diabo. Até porque o amor à infância, se curado, ao homem não resta nada. Ela aperta-me o abraço. Admira instintivamente. Não se incomoda de ser o meu supérfluo, uma vez que sabe que sempre me faltará o necessário. Cada afago, regressivo, escorregadio, emaranha e resvala numa rigorosa hierarquia de méritos. Depois esbate-se, liquefeito, contra o mesmo orifício de onde vinha num eco de pêlos e covinhas um gorjeio de pequenos e deploráveis espasmos. Se fecho os olhos, tudo o que vejo é uma espécie de clarão a piscar como uma cloaca (o mundo que lá ficou por pura inércia e os matizes menos intensos de que são feitos os rudimentos de uma precaução devidamente fingida). E o futuro todo enfiado em dois ou três minutos do passado, a transbordar intenções vazias, jogadas, numa estranha e pequena contracção pélvica, mais para dentro dela do que para ela: uma infância em estado natural, sem os homens, a desempenhar seu próprio papel, a esvaziar completamente o mundo como se este fora sua própria bexiga.

 

Peor

despesadiaria às 00:26
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