Domingo, 9 de Novembro de 2014

 

O tempo é uno, indivisível. O tempo é sempre. Mas nós precisamos de dividir o tempo para contar e apontar o que contamos, e para isso criamos uma máquina monstruosa: o relógio. O relógio é um mecanismo criado por um génio supra humano para nos escravizar. É uma fonte inesgotável de desgraça, que espalha sem mercê desencontros por todo o mundo e ao mesmo tempo!

Mas não quero falar dos relógios em geral e sim de um especial: este relógio. Sempre ao meu lado, tic-tac-tic-tac, não pára de me chatear e de me lembrar constantemente o atraso de vida que levo desde que o comprei. Não é um relógio qualquer, tem despertador. Mas o principal é que ele é o tempo, o meu tempo. Parece uma coisa difícil de perceber, mas não desanimes. Insiste.

O atraso aparentemente já existe há muito tempo, o relógio só o tornou aparente. Por exemplo, quando me deito na cama junto dele e me embrulho no seu cheiro, ou quando mergulho no sonho da preguiça e fico lá em baixo sentada a ver passar os barcos, esqueço-me completa e desastradamente do tempo que passa com eles.

É então que o relógio se chega a mim com aquela voz maternal e ritmada e me diz: come, minha filha, come.

Um destes dias, não chega a tempo.

 

r. owtag

despesadiaria às 21:06
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