Segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

 

Beicinho

 

A Diana está sempre a fazer beicinho. É das almofadinhas que lhe aconchegam os olhos e espremem a boca num trejeito eternamente desapontado; almofadinhas bem afofadas e mimosas, às pintinhas acastanhadas: por causa delas, a Diana parece estar sempre à espera do pacotinho de Sugus que a mãe não lhe comprou. A curva da boca em forma de coração: sempre forçada para baixo. As orbes protuberantes: sempre de um azul líquido. Quem não a conhecer, acha que os gestos lassos vêm de um estado de aborrecimento perpétuo. Mas a Diana é simpática. Descobri-o quando lhe dei um lenço de papel, num dia em que o ar condicionado do comboio estava particularmente agressivo e ela não parava de fungar. Por momentos achei que a resposta ao meu gesto seria uma língua rosada a querer apanhar ar. Mas ela sorriu, e quando o fez pareceu-me que a cara dela ia explodir como uma piñata derrotada.

Depois desse dia, passámos a sentar-nos juntas no comboio. Partilhamos meia hora de vida: o segmento diário da pequena atualidade onde a Diana é a estrela e eu apresento a meteorologia. Sim, a Diana gosta de partilhar o pacotinho de Sugus que comprou às escondidas da mãe: a primeira coisa que fez quando lhe estendi o lenço de papel foi assoar-se — ruidosamente, agradecidamente, aliviadamente; a segunda foi contar-me que trabalhava na receção de uma clínica.

— Tento sempre oferecer um sorriso às pessoas. — A Diana explica-me isto como quem anuncia ter aprendido a fazer contas de dividir com dois números. Aqui, sem referencial nenhum, vogando nas letras, esta é uma declaração simples; dentro da carruagem, no nosso pequeno segmento noticioso, sei que foi dia de consultas de psicologia na clínica. A seguir ao intervalo, não perca: histórias de quem faz terapia.

— Há esta miúda, chama-se — é inevitável, informa-me a colega, não decorar as caras e os nomes. Na maior parte dos casos, as visitas são semanais, e se não o são agora é porque já o foram antes. Os traços marcam, as pessoas são únicas e não há dois narizes que arrebitem da mesma forma; depois, alguns vazios são demasiado perturbadores para serem esquecidos: os nomes vêm classificá-los. Toda a gente traz uma etiqueta presa ao pescoço, alguns aproveitam para enforcar-se nela. A Diana conhece-as — as gastas, as carcomidas, as rasgadas — porque assim tem que ser, mas do outro lado do balcão branco, prefere mantê-las viradas para baixo, — e tem sempre um livro debaixo do braço. É a única coisa que sei que ela vai ter sempre: um livro debaixo do braço.

Um suspiro para a câmara, um encolher de ombros para mim. — Mas todas as semanas é um livro diferente.

Hoje a miúda usava um livro de mais de quinhentas páginas encostado ao peito, como um escudo. As pestanas murchavam com o peso das lágrimas. Uma moldura triste, a condizer com o quadro: escleróticas avermelhadas, linhas de água nuas e inflamadas. Nariz-torneira, corrimento mal contido por um lenço de papel encharcado. A Diana têm aquelas bochechas porque é na boca que segura a empatia, para a ter pronta a ser soprada a qualquer instante. Enquanto lhe tratava do recibo, reparou nos lábios avermelhados. O contraste entre a cor dos lábios — grossos, desenhados com precisão — e a pele branca sugeriu a interação:

— Eu disse-lhe que o batom lhe ficava muito bem. Ela olhou para mim com os olhos muito abertos. Parecia um desenho animado fanhoso. — A concavidade da curva infeliz acentua-se, entre as sobrancelhas nascem três risquinhos indignados. — Afinal não havia batom nenhum. Olha, ela nem sequer estava a chorar! Aquilo era alergia e os lábios estavam inchados do cieiro. Por causa da alergia, ela estava sempre a lambê-los. Nunca me passou pela cabeça que o cieiro ficasse bonito em alguém. Nela ficava.

Vamos seguir para intervalo. Dois minutos dedicados aos compromissos comerciais para tentar explicar à Diana que nem toda a gente gosta de Sugus: agarram-se muito aos dentes. Mas a Diana têm a infância nas faces de fora e nas faces de dentro. O mal entendido desilude quem leva a sério a tarefa de bem receber e a arte de perguntar por formas de pagamento, sistemas de saúde e tratamentos seguintes. Não teremos outro programa além do lábio bicudo montado no irmão de cima, todo empinado, orgulhoso. Regressamos com o prólogo, fatal e amuado prólogo: — Ela até se estava a rir enquanto me explicava tudo. Depois marcou a consulta para a próxima semana e saiu aos saltinhos. Estava feliz.

 

S. White

despesadiaria às 12:45
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