Quarta-feira, 12 de Novembro de 2014

(voltamos a apresentar)

 

Como é facil de calcular, quando Alexandre, por não usar luvas, tirou o gorro, o atirou à cara do Capitão e lhe gritou Exijo satisfação, está-me a ouvir? Um duelo, nós, já!, com Cazé, tarde demais, a puxar-lhe o braço, os três agentes de pé e mãos nos coldres, a situação estava mais uma vez, pela terceira vez, descontrolada.

Menano, ainda assim aliviado por Alexandre ter escolhido a taberna e não um beco para o confronto, fez sentar os homens. Limpou a cara com um guardanapo, procurou o seu mais conciliador sorriso, e esticou a mão com o gorro na direcção de Alexandre

- Meu rapaz, há aqui excessos imperdoáveis de parte a parte, devemos reconhecê-lo, mas está a propôr a um agente da autoridade um duelo. Está a sugerir uma ilegalidade para resolver o nosso problema, há formas

- O capitão desculpar-me-à, não pude deixar de ouvir, e o assunto interessa-me muitíssimo. Na verdade não é uma ilegalidade. Melhor, não é necessariamente uma ilegalidade.

Menano e os agentes, Alexandre e Cazé, olharam o homem que da mesa ao lado tinha decidido intervir, e que, já de pé, estendia o cartão de visita de firma de advogados continuando

- Nada impede um duelo de poesia.

Alexandre, cansado, incrédulo, revirou os olhos,

- De quê?

- Tem morrido muita gente de poesia, jovem.

Menano interrompeu

- Caro Dr...

- Antunes Pinto.

- Antunes Pinto. O doutor sabe melhor do que qualquer um de nós que o Estado tem o monopólio do uso da poesia, não me posso envolver poeticamente com um civil.

- Excepto em duelo, aliás a mais bela das excepções. Repare, quando o legislador proibiu os duelos em 1899, foi da mais desavisada especificidade, proibindo todos os confrontos com as armas que, à altura, eram utilizadas, e enumerou-as no decreto. A poesia, tendo sido criminalizada há apenas alguns anos, não foi considerada, pelo que estamos perante um dos mais magníficos vazios legais, provocados pela intersecção de duas proibições.

Menano não respondeu, consultou seus agentes por uns minutos e todos concordaram com o advogado.

- Não há necessidade de chegarmos a isto

disse ainda a Alexandre, que sem responder arrastou Cazé para junto do balcão. Cazé era o mais antigo amigo de Alexandre (e o mais robusto, o que talvez o tenha levado a ligar-lhe antes de entrar), mas mesmo este tipo de lealdades têm dificuldade em entender determinadas decisões.

- Cazé, a Raquel não pode saber disto.

- Tu nunca contaste à Raquel que andavas metido na poesia?

- Não, pá! Quando a conheci já a poesia era proibida e, de qualquer forma, eu tinha deixado uns anos antes, não sei o que fará se descobre isto

- Meu, avisei-te tanto...

- Opá, 'tá bem, já sei, o que é que queres agora? Não passa uma noite sem que me lembre de todas as pessoas que sofreram por me ter metido nisto.

- Bem, tu nunca

- Eu nunca o quê?

- Nunca escreveste. Pois não?

- Cazé, eu declamei poemas meus em público. Não sobreviveu ninguém naquela sala, ninguém.

- Foda-se, Alex...

- Ela não pode saber disto. E não é só, porra, arrisco-me a matar o velho.

- Ou morrer, man, ou morrer. Estes gajos andam na poesia todos os dias, os jornais estão cheios de histórias de putos desarmados que levaram com uma estrofe pelas costas. E estes porcos sempre a protegerem-se uns aos outros, que só mandaram versos para o ar.

- Não tenho medo nenhum deste gajo, nem dos três que estão com ele. Acredita, não sou eu quem vai sair mal disto.

Cazé não respondeu mais e regressou à mesa. Conferenciou com o outro padrinho as condições possíveis. A Menano, por ter sido desafiado, coube a escolha das armas. Alexandre estranhou a confiança com que ouviu Camões, sonetos. Invertidos. Do último para o primeiro verso, mas não podia ter ficado mais satisfeito. De resto, pouco a acrescentar, seria até ao fim, quaisquer que fossem as consequências.

Alexandre e Menano enfrentaram-se em silêncio por mais de quinze minutos. Dir-se-ia que combinaram acrescentar tensão ao drama e a julgar pelos presentes estavam a consegui-lo. Começou Alexandre, de olhos presos no Capitão. Com voz lenta e melódica arrancou:

Senão a mim, que de matar-me vivo.
Ó pastores! fugi, que a todos mata,
As setas traz nos olhos, com que tira.

Mas com as armas foge ao moço esquivo.
Para tamanha empresa, não dilata;
A Ninfa, como idóneo tempo vira

Antes que adormecesse, pendurava.
Num ramo arco e setas, que trazia
A vir passar a sesta à sombra fria,
Cupido, que ali sempre costumava

As amarelas flores apanhava.
E subida nũa árvore sombria,
Sibela, Ninfa linda, andava um dia;
Num bosque, que das Ninfas se habitava.

Que espectaculares violência e desenvoltura. Cazé e os agentes duvidaram se alguma vez tinham lido o poema de outra forma, mas a partir de agora os silêncios terminavam e o Capitão, com o queixo exageradamente levantado, de tom mecânico mas deslumbrante ritmo, respondeu de imediato,

Para tão longo amor tão curta a vida.
Dizendo: − Mais servira, senão fora
Começou a servir outros sete anos

e assim por diante, até ao fim, com segurança despreocupada. Os dois homens atiravam-se ao soneto seguinte como se não tivessem acabado de levar em cheio com catorze versos e nisto ficaram durante horas. Quando acabaram a lírica conhecida, trocaram de sonetos e declamaram o que o outro tinha escolhido, tantas vezes quanto as necessárias.

Ao fim de quase quatro horas sem interrupções, Alexandre estava no chão, de joelhos, com um corte no olho direito e arranhões por todo o corpo, as dores eram inacreditáveis, a respiração pesada era só o que ecoava pelas paredes da taberna. Os versos de Menano tinham sido de uma crueldade surpreendente, sobretudo vindos deste homem, uma interpretação sem paralelo com nada que Alexandre tivesse ouvido. Voltou o silêncio, doente de raiva e humilhação, encolheu-se ligeiramente, sentiu o chão debaixo das mãos e deixou cair uma lágrima derrotada. Levantou lentamente a cabeça para o Capitão que já olhava para os seus homens com caretas vitoriosas e não foi possível evitar mais o que se seguiu. Recuperou com tempo a respiração e, com uma espectral voz queimada, atirou sem qualquer remorso,

Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date

Não chegou a começar a segunda quadra, os agentes saltaram sobre ele, imobilizaram-no imediatamente e fecharam-lhe a boca com as mãos, com os braços, com o cassetete, Cazé agarrava-se à cabeça em desespero, o advogado chorava. Era com toda a certeza tarde demais. O Capitão, apanhado à traição por um soneto de Shakespeare pela ordem correcta, jazia no chão quase imobilizado excepto por uns aflitivos espasmos. Uma linha de sangue muito escuro escorria-lhe pelo ouvido.

Quando entraram bombeiros e restante força policial, já nada havia a fazer por nenhum dos dois.

parte I

Gouveia

despesadiaria às 16:18
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014