Sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

...

O poço (um outro)

 

Não havia entre Minho e Lima um melhor vedor do que Carolo, como então era conhecido na aldeia de N. A eficiência no seu ofício era tal que, mesmo bêbado, o que sucedia amiúde (diz-se que se meteu na bebida ainda novo, após um desgosto de amor), nunca falhou uma veia de água. Estes raros atributos, combinados com os rudimentares instrumentos que utilizava (por regra um arame dobrado em Y, ou um ramo de oliveira com o mesmo formato), conferiam-lhe, apesar da vida desgraçada, uma certa aura mística respeitada pela generalidade do povo.  

Mas foi com grande surpresa que, naquele dia, Carolo ouviu do Sr. Comendador o estranho pedido (ou melhor, a ordem) para ir à propriedade da Casa da Torre detectar água para abertura de um poço.

– Mas o Sr. Comendador não tem já um poço lá em cima? – perguntou Carolo intrigado.  ­

– Tenho Carolo, mas quero abrir outro. O que lá temos agora não tem profundidade suficiente e é já muito antigo.

O Sr. Comendador havia adquirido a propriedade e o palacete da Casa da Torre ainda nem há seis meses, após a morte da viúva Noronha de Azevedo. Os herdeiros, todos por Lisboa e Porto, depressa se desfizeram do património da família quando o Sr. Comendador lhes abanou as notas no focinho. Não se falou de outro assunto na aldeia durante semanas.

– Foi o meu falecido pai que detectou a veia para esse poço, ainda no tempo do velho Noronha de Azevedo – acrescentou Carolo. – E segundo creio nunca lhe faltou água, mesmo nos Verões mais secos.

– Pois, ó Carolo, mas eu quero abrir um novo poço, o mais profundo de toda a freguesia, e onde possa meter a minha mulher.

– A Sr.ª Dona Isabel? – perguntou gaguejando Carolo.

– Além disso, faz o que eu te digo Carolo, bem sabes como eu pago bem a quem trabalha para mim – disse já furioso o Sr. Comendador. – Ó Laurinda, quando te deve aqui o Carolo em vinho?

- O Sr. Comendador não precisa…

- Está calado Carolo – praguejou o Sr. Comendador. – Fica pago Laurinda, e serve-nos uma taça de vinho a cada um.

A sobranceria do Sr. Comendador era bem conhecida em toda a aldeia. Logo após a compra da Casa da Torre, ela própria construída sobre o morro que dominava toda a freguesia, mandou subir o telhado da torre dois metros. O Sr. Comendador não admitia viver numa casa que em altura só perdia para a igreja paroquial.  

Também conhecida era a forma bárbara com que tratava a sua mulher, a D.ª Isabel. Não eram raras as vezes que D.ª Isabel aparecia na missa com um lenço escuro sobre a cabeça, na vã tentativa de tapar as nódoas negras e os cortes no rosto. Por vezes tinha até de se abrigar em casa de vizinhos, para onde fugia dos pontapés e ameaças de morte do Sr. Comendador. Acreditava-se na aldeia que o Sr. Comendador, além dos ciúmes (apesar dos quarenta e muitos, D.ª Isabel ostentava ainda os traços da rara beleza que a distinguia quando era mais jovem), não perdoava a mulher pelo facto de nunca lhe ter dado um herdeiro.

 

Após o inusitado e ameaçador pedido do Sr. Comendador, Carolo entregou-se à bebida com mais denodo do que era habitual. Esteve uma semana sem aparecer em casa, vadiando em contínua borracheira, dormindo pelas valetas ou sumidoiros que encontrava. Isto até ao dia em que o Sr. Comendador o arrastou desde a taberna da Laurinda até à sua propriedade, curando-lhe a bebedeira a murro e pontapé.

Foi necessária toda uma manhã para Carolo, andando de trás para diante, da esquerda para a direita, segurando a vara de vedoria, encontrar um local onde pudesse ser perfurado um poço. Finda a tarefa, Carolo volveu à actividade interrompida pelo Sr. Comendador.

Porém, passados dois dias apenas, o Sr. Comendador voltou novamente à taberna da Laurinda para arrastar novamente Carolo. E desta vez deu-lhe tamanha carga de porrada que o desgraçado ficou de cama por uma semana. Sucedera que, após os primeiros metros de escavação no local indicado por Carolo, os pedreiros encontraram um bloco de granito tão duro e maciço, como nunca haviam visto em toda a província do Minho. Viram-se obrigados a abandonar a empreitada, à força das picaretas partidas e do pouco avanço na perfuração durante dois dias de trabalho contínuo.

À segunda tentativa, sob coação do Sr. Comendador (que previamente se munira com uma das suas caçadeiras), Carolo não se enganou, indicando um local passível de ser perfurado, e onde existia uma farta veia de água. O poço foi escavado em menos de uma semana, resultando num furo com a profundidade de 32 metros, uma marca sem precedente na aldeia.

O Sr. Comendador decidiu aproveitar o dia do seu aniversário, num Domingo, para celebrar, com toda a pompa e foguetório, a inauguração do novo poço da Casa da Torre. Assistiram à inauguração e bênção do poço todas as entidades civis e eclesiásticas da freguesia e arredores. O Sr. Abade, explodindo de contentamento, espumava-se só de imaginar o grande repasto que se seguiria. E, de facto, o Sr. Comendador mandara matar um porco e abrir uma pipa de vinho de propósito para o acontecimento. Foram lançados os foguetes, e a procissão seguiu para o velho palacete dos Noronhas, onde iria ser servido o almoço festivo.

Uma ausência que se notou durante a manhã, e se confirmou ao almoço, foi o de D.ª Isabel. O Sr. Comendador inquiriu os criados, mas ninguém sabia do paradeiro da senhora. Encetaram-se buscas pela casa e pela propriedade, bem como nos terrenos vizinhos, e nenhum rasto foi achado. Partiram a cavalo, pelos campos e montes da freguesia, três moços em busca da senhora. Porém, regressando ao final da tarde, não lograram descobrir quaisquer notícias de D.ª Isabel. Nesse momento alguém mencionou o poço. Foram chamados os pedreiros que o haviam perfurado uns dias antes, e, com o auxílio de cordas e iluminação, desceu-se ao poço. E lá estava D.ª Isabel, já cadáver, juntamente com o cadáver de Carolo, ambos afogados no novo poço da quinta da Casa da Torre.

 

nev

despesadiaria às 15:20
|

.Arquivo

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014