Sábado, 15 de Novembro de 2014

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A Casa Smithes

Porto, Fevereiro de 1848

 

John sabia que a fortuna não lhe reservara qualquer lugar ou missão digna de nota. Nesse aspecto, era um jovem desiludido em paz com a vida. Pelas suas humildes origens, fora já uma sorte a tia Dorothy ter conseguido empregar os irmãos Smithes numa prestigiada casa bancária da City londrina. E agora surgia, para ele, a incrível possibilidade de aspirar à posição de sócio numa firma comercial com escritórios na Península. O epíteto de “negociante” agradava-lhe. Via nele, nesse papel, uma condição de aventureiro respeitável, pronto a viagar pelo mundo em busca de aliciantes oportunidades de lucro. Mr. Archibald, o sócio sénior da casa, contara-lhe das viagens que fizera com o pai nos primeiros anos do negócio: a cavalo pelas serras portuguesas cortadas em vales mais belos do que ousa a imaginação; cruzando a galope as planícies infindáveis da Andaluzia até ao repouso final e justo das praias do mediterrâneo. Se John não aspirava a uma vida de opulência e desmedido sucesso, esperava ao menos – queria ao menos – ver o mundo que existia para lá do seu Yorkshire natal. E a tia Dorothy, qual celestial benfeitora, atendera fielmente ao seu pedido.

John desconfiava, no entanto, da sua aptidão para merecer o que a sorte singelamente lhe propunha. Contara à tia Dorothy as suas apreensões, sobretudo o grande medo de não conseguir vingar aquela vontade que ele ardentemente sentia. E logo se apressava a desculpar a sua aparente, mas não sincera, ingratidão; eram apenas palavras de conforto que procurava. A tia Dorothy, como de costume, deu-lhe isso e mais ainda: entregou-lhe um precioso pedaço escrito de si. À partida de Inglaterra, há exactamente um ano, confiara a John as cartas que escrevera durante os treze meses de cerco à cidade onde morou na sua mocidade e para onde John partia agora – o Porto. Baixinho lhe confessou terem sido estes os dias mais excitantes da sua vida. A tia Dorothy conhecera o seu marido, Mr. John Procter, num baile em Lonsdale, sua aldeia de origem perdida nos pastos férteis do Yorkshire. Ao tio Procter, sócio de um negociante de algodão, cedo lhe foi pedido que se mudasse com a sua jovem esposa para aquela peculiar cidade da Península. Dorothy levou algum tempo a acostumar-se à nova casa, numa ladeira sobre o rio a que, no Porto, davam o nome de Entre-quintas. Mas depressa percebeu que os seus dias seriam, no menor dos casos, sempre intensamente preenchidos. O país travava uma terrível guerra consigo mesmo, alimentada pelas inquietantes ideias de liberdade e de progresso que chegavam da França e da Inglaterra. Os dias viviam-se por inteiro, ninguém parava um segundo para respirar. E depois veio o cerco. Às primeiras horas do levantamento das barricadas, Dorothy suspeitou possuir uma capacidade que nunca experimentara, provavelmente fruto daquelas extraordinárias circunstâncias: bastava-lhe querer, apenas querer, para deitar mão ao curso dos acontecimentos. Assim fizera. Aos primeiros dias do cerco, abriu a sua porta à causa e aos amigos do Rei Libertador. Ria cada vez que se lembrava com que solenidade os ministros e oficiais do Estado-Maior, reunidos à volta da sua mesa de jantar, proclamavam a chegada do seu querido amigo, «sua alteza, o Rei Libertador». Mas era quando o rei se sentava com ela à varanda da casa de Entre-quintas para tomar chá que ele, condoído, lhe confessava, no mesmo tom que John usara, «ponho em séria dúvida a minha capacidade de defender esta causa, caríssima amiga». Dorothy lembrara ao rei estas palavras quando, no final, vencido o cerco e a guerra, e já com Maria da Glória, sua filha, coroada rainha, ele viera ao Porto e à sua porta agradecer a valentia da cidade e o consolo dos lanches de Entre-quintas. Com a mesma gratidão com que louvara o Porto com o título eterno de cidade invicta, também Dorothy recebera, do seu coração, a graça de siege lady.

Era uma das histórias favoritas de John. Não admira que a cidade idealizada pelos contos de galhardia e heroísmo lhe tenha parecido deslocada da cidade real, burgo lúgubre e bolorento dobrado de velho sobre o rio, sempre em frenética actividade, como que para prevenir que a humidade infeste e apodreça as suas fundações: são as ruas largas que se abrem sobre vielas medievais, os palácios que se constroem sobre as ruinas de outros, chafarizes novos que se oferecem aos bairros decadentes, as igrejas que se renovam ao estilo da época, cafés novos que abrem portas às ideias novas. Estava mudada a cidade que Dorothy trocara alguns anos depois da guerra pelo conforto burguês da Inglaterra vitoriana.

John chegara ao Porto há exactamente um ano, numa manhã fria de temporal cheia de neblina, como são por costume as manhãs de Fevereiro. A falta de visibilidade obrigara o capitão do navio onde John viajava a encurtar a viagem e a atracar na foz do rio Leça, evitando assim a entrada na perigosa barra do Douro. Messr. Grieg, que o esperava, estava habituado a estes contratempos próprios daquele mar sempre bravo, e prontamente se apresentou em Leixões para o guiar à sua nova casa. Assim fora o seu primeiro encontro com Messr. Grieg, o amparo de John nesse ano e quem ele, em pouco tempo, tomou como mestre.

No prédio alto da Rua de São Francisco, Messr. Grieg recebia-o todas as noites para jantar. Conversavam sobre os assuntos da política, da ciência e da religião enquanto John saboriava os vinhos da firma. Messr. Grieg, pelo contrário, bebia quase sempre cerveja importada da sua Escócia natal. Nunca mais lá voltara desde que, aos 18 anos – a idade de John quando deixara Inglaterra – saíra de Edimburgo para se alistar na marinha mercante. Apesar de cedo ter deixado a vida de oficial, o velho criado português ainda o tratava por “senhor capitão”. Grieg era um cavalheiro recolhido mas toda a comunidade britânica na cidade o conhecia e admirava. Era exemplar o extremo empenho que dedicava às suas duas missões de vida: a administração da casa comercial, com escritório na Rua dos Ingleses, à Ribeira, e em constante e cordialíssimo contacto com casa-mãe em Londres; e o enriquecimento da biblioteca do club local, que pela sua mão se tornara uma das mais completas bibliotecas inglesas fora das ilhas britânicas. A trajectória diária de Messr. Grieg era simples de desenhar: de casa seguia para o escritório logo pelo raiar do dia; no final do expediente dirigia-se ao club, onde ficava a ler até o sol pôr, altura em que voltava a casa para jantar com John. É curioso notar que estes três pontos eram intersectados por uma linha geográfica real, a Rua dos Ingleses, que, entre os seus extremos (a casa da rua de S. Francisco e o club) não distava mais de trezentos metros. Tudo isto John relatava à tia Dorothy nas laboriosas cartas que lhe escrevia semanalmente. Dorothy, em resposta, revelou-lhe por que razão a obstinação quotidiana de Messr. Grieg se tornara lendária na cidade. Contou-lhe que essa linha de trezentos metros que ele todos os dias percorreu em trinta e dois anos de serviço à firma, se tornara, nos treze meses que durou o cerco, na principal linha de fogo das baterias inimigas instaladas em Villa Nova. Mas nem por isso Messr. Grieg deixou de a talhar nesse tempo. Quando já toda a gente, ingleses e nacionais, tinham abandonado a zona ribeirinha, ele persistia em fazê-lo, impassível. Foi o último a abandonar a Rua dos Ingleses. Só quando o inimigo incendiou os armazéns da casa comercial em Villa Nova, Grieg se viu incapaz de continuar com a sua rotina. Já nada restava para administrar a não ser a sua própria vida.

Catorze anos passaram-se desde então, período durante o qual Messr. Grieg recuperara as instalações de Villa Nova, o normal funcionamento do negócio e, em especial, a sua rotina. John ia com ele todas as semanas ao armazém onde o quase centenário Senhor Domingos misturava e preparava os lotes de vinho que eram depois enviados para Inglaterra. Messr. Grieg obrigava John a escutar pacientemente as lições do Senhor Domingos, na opinião do escocês o mais refinado provador de vinhos da cidade.

No dia em que se completava um ano desde a chegada de John ao Porto, Messr. Grieg anunciou ao jantar que em breve deixaria a firma. É a minha despedida, disse. Voltará à Escocia, perguntou John. Não, nunca mais lá voltei desde que tinha a tua idade e não pretendo fazê-lo agora; não irei passar os meus últimos anos enterrado na neve e dilacerado pelos ventos do Árctico. Pelo contrário, irei ter com o meu irmão Hector à ilha de Malta, onde ele assume o cargo de secretário do Governo do arquipélago. Messr. Grieg descreveu a John como aquela ilha vivia sob o sol implacável do Mediterrâneo, como eram altos os muros brilhantes, intransponíveis da capital, Valleta, nunca derrubados por qualquer armada. Contou-lhe como, ao final de cada dia, se sente uma serenidade tão plena nas ondas que acaricíam as baías da ilha que se crê que o mar as escolhe para lá passar a noite descansado… Mas antes, vou levar-te ao Douro, declarou. O livro de contas agora pertence-te. Começarás a assinar as cartas da fima. John, meu rapaz, agora estás tu ao leme. Toma-o bem, segura-o firme. Partiremos para o Douro em três dias, a tempo da feira da Régua.

Naquela manhã de Fevereiro, John escrevera à tia Dorothy especialmente ansioso. Messr. Grieg esperava-o no cais. Era a sua primeira viagem à terra do vinho; e era a sua primeira aventura como "negociante", dotado de livro e de firma própria: John Smithes, wine merchant. Naquela carta, pediu perdão à tia Dorothy pelo tempo que passaria sem lhe escrever, ocupado em longas e fascinantes viagens pelos vales do Douro. Messr. Grieg ajudou-o a entrar no barco; deixá-lo-ia em breve, pensou. O vento corria forte, as velas enfunaram-se num sopro. E John viu a cidade afastar-se, cada vez mais longe de si.

 

p.a.leitão

despesadiaria às 18:51
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