Quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

 

VI

 

Entre ele e o objecto, um vazio inominável. Da sua mente ausentaram-se os nomes, a funcionalidade do mundo existia à margem de qualquer definição, os usos tinham retornado aos serviços mínimos, um animalzinho gestual. Acordava pelas duas da tarde, as insónias nocturnas eram leves, concentravam-se num mostrador com um pêndulo que balançava, matemático, medidor do tempo que não consegue conceber. Mesmo com a ilusão do olhar a ceifar o vidro, o exterior não se traduzia, nos estilhaços do seu entendimento tudo se tornava indecifrável. Movia-se entre a sombra e a luz; numa, escondia o cansaço, noutra, deixava que um arrepio electrizante lhe estremecesse o corpo da cabeça aos pés, não existindo nada além de si mesmo, um palimpsesto humano. O final da tarde trazia sempre uma imprecisão nova repetida: alguém lhe entrava pela porta, a mesma indumentária a ferir de branco. Entregava-lhe as mãos, a língua, o peito. As sensações de frio e calor, em alternância, deixavam-no desatento, esgotado, desistira de compreender, apenas porque a desordem de si lho ordenava. Findava o encontro, um travo ácido descia-lhe pelo esófago para depois subir, na senda do sangue, à hipótese de cérebro. Uns minutos depois, o embrião de uma palavra gerava-se-lhe na boca, mas autodestruía-se logo a seguir, mesmo antes de conseguir levantar os dedos e, com o olhar (trans)lúcido de comoção, apontar para o relógio.

 

gisandra

despesadiaria às 00:23
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