Quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

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deves adivinhar que é novembro, aquele mês em que os dedos te surgem crestados pela fuligem do carvão e das castanhas que golpeias, uma a uma, com a navalha afiada na pedra pomes destas tardes frias de outono. nem reparas em mim quando me aproximo, quase sem falar, e, na concha da tua mão, deposito a moeda que trocas por uma meia dúzia que velavas em câmara ardente. 

sigo o meu trajecto de volta a casa neste cacilheiro que galga as ondas em velocidade de cruzeiro, enquanto lá fora a chuva que começou por cair miudinha se estatela agora de encontro ao vidro fosco das janelas. o barco, esse, balança numa dança de convocar fantasmas e enjoos. posídon e mil dos seus cavalos em fúria viram o tejo do avesso. 

com o que me resta de dignidade, recuso dar-me ao pânico e, fora eu homem de menos esguardo, diria que não é coisa própria dos deuses invejarem um deleite tão mortal.

 

eram só castanhas, senhor.

 

- azeite

despesadiaria às 21:50
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