Terça-feira, 6 de Maio de 2014

 

Mastigue bem a comida para facilitar a digestão

 

Sentada à minha frente, de perna cruzada, está uma senhora. Pago-lhe à hora para me resolver. De cotovelos apoiados na mesa de vidro que nos separa, segura uma folha rascunhada a preto. Diz-me que tenho ruminações. Endireito os ombros  e aumento a velocidade com que as minhas pernas, também cruzadas, se movem para cima e para baixo. O salto do meu sapato bate no chão, num staccato frenético.

Costumava ver os meus pensamentos como um carrossel da feira de Maio. Sempre detestei os carrosséis e todo aquele bailar eterno sobre si mesmos. A novidade esgota-se em poucos segundos e o resto do tempo é a paisagem a autoflagelar-se. Na feira de Maio, a paisagem é um campo de gravilha cheio do lixo das barracas das farturas e dos copos de plástico das imperiais. O meu pai queria que eu andasse nos carrosséis todos e não percebia porque é que, ao contrário das outras crianças, a filha preferia passear de mão dada pelas barraquinhas de artesanato ou olhar para o motor dos tratores em exposição. A ideia de andar às voltas presa numa chávena de chá colorida atormenta-me. O estômago não segura a forma, a cabeça não mantém o equilíbrio, a repetição das imagens é claustrofóbica: a minha mente funciona assim e é como se num carrossel estivesse presa dentro de mim mesma.

Mas afinal, o abstrato é um pasto cheio de azedas. Imagino vaquinhas malhadas a pastar dentro da minha cabeça, abanando o rabo para afastar as moscas. O terreno onde repousa a generosa manada tem uma forma irregular e é delimitado por uma cerca de madeira. Faz sol, cheira a calor (que para mim é o cheiro da terra seca dos campos, no tempo das amoras). Alguns animais estão de pé, a fitar o vazio, outros deitam-se sob a sombra dos sobreiros empoeirados. Na maior parte deles, a mandíbula move-se com parcimónia e as bochechas ora insuflam, ora são sugadas para dentro, formando covas. Os sonhos são uma pasta verde e peganhenta. Os pensamentos são quimos regurgitados, mastigados ad aeternum ou até sair merda.

Sem explicar como vi os meus pensamentos transformados em vacas, terminamos de discutir as ruminações. São apenas parte do problema, avancemos pois, que a agenda está cheia. Agora oiço dizer que uso a fantasia como mecanismo de defesa. Não me diga, senhora.

 

S. White

despesadiaria às 09:34
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