Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

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É preciso, e é preciso bastante, que estejamos avisados de que, logo após o canavial que cobre tão regularmente a ravina, há uma casa que parece feita de renda de madeira; tem a estrutura flexível, suave, fina como os ossos de um gato (mas sem as ripas pregadas nas cambotas para guardar postura de vida). Sem tapeçarias, sem corante nas paredes, parece existir apenas para si mesma. Mistura de carvalho, azevinho e medronheiro, por duas vezes foi incendiada e reerguida no mesmo estilo de reconstrução de Hiroshima. Na ida de um cómodo a outro (são dezasseis), pode-se ver um rebanho de Yahoos a correr como uma descoberta enfiada na outra. E não há limite a partir do qual evidencia-se por dentro: uma arquitectura que é só externalidades, uma exoarquitectura. Só mais tarde lhe vem o sentido: a ligação entre as coisas é parte das coisas; uma parte que podemos ultrapassar sem merecer, e que vai um dia se tornar uma assombração na minha cabeça, sentada no meu cérebro entre as duas orelhas como se estivesse na sanita. Vou ter de levá-la por toda parte, espécie de chapéu-coco, ou daquelas coisas que esforçamo-nos muito para ver mas que, apesar de tudo, não podem ser maiores do que a nossa incapacidade de vê-las. 

 

Peor

despesadiaria às 03:51
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