Sábado, 22 de Novembro de 2014

 

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Manhã chuvosa e eu outra vez à tua espera. Não me queria estar sempre a queixar, mas dou por mim muitas vezes à espera de alguma coisa e, vamos dizê-lo sem mais rodeios, nos ultimos tempos é de ti.

A chuva também não quer saber se fico ridícula aqui à beira da estrada, coberta de plástico e de guarda-chuva em riste, como se fosse um pescador. As ondas batem com estrondo nos prédios em meu redor e a água chega por todos os lados. Ela não está à tua espera e por isso não percebe. Quer que eu volte pra casa.

Mas o pior ainda é fazeres-me sentir tão impotente perante o ritmo da tua passada, do teu caminho. Porque tu sabes que eu preciso de ti, que quero ir contigo. E por isso fazes-me esperar, essa antiga prerrogativa do poder. Fazes de propósito, só pode ser. Ah, que raiva sinto por precisar tanto de ti.

Mas preciso que venhas, e que venhas rápido. Preciso do teu calor, do teu conforto, do suave balanço do mundo visto pela tua janela. Preciso que me tires desta realidade cinzenta e chuvosa e me leves embora daqui para ser feliz ou infeliz, quem sabe. O padre está sempre a dizer-me que a paciência é a virtude mais difícil de obter mas também a mais frutuosa. Mas ele só sabe falar de eternidade, quando o que lhe pergunto é tão urgente. Não tenho a vida toda.

Anda, por favor! Já estamos cá todas, como sempre. E mais virão, à tua espera. Não há posse nem ciúme, nem podia haver, era ridículo. Sinto, sei bem, como elas precisam de ti tanto quanto eu. Pressinto o vazio e o bloqueio que se apoderaria da minha vida se uma delas te tivesse só pra ela. Somos todas Irmãs aqui, estamos todas no mesmo barco.

Acendo um cigarro, fecho os olhos e imagino que te vejo vir. É o suficiente para o primeiro sorriso do dia. Cada uma de nós tem que arranjar técnicas para suportar a espera. Há quem goste, por exemplo, de se manter sempre ocupada, a ler, a escrever ou a falar ao telefone. Mas pra mim, isso é só para fingir que ainda não se submeteram, que não te esperam, como se estivessem ali por acaso.

De repente, um burburinho entre as vigias, velhas cadelas de olhos tão pequenos quanto míopes, mas capacidades auditivas tuberculosas (pudera, com este tempo!). São sempre as primeiras a ouvir o rugir que anuncia a tua chegada. Abro os olhos e vejo-te aparecer de rompante ao fundo da rua. O cigarro!, ainda pensei numa tentativa quasi-científica de racionalizar tanta excitação e alívio, com vista a posterior replicação em situação de semelhante angústia. Mas já não havia tempo para superstições, tu vinhas claramente disposto a compensar o atraso.  

Pus-me a jeito, e fiz-te sinal.

 

r ow t ag

despesadiaria às 19:55
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