Domingo, 23 de Novembro de 2014

 

McClintock (não-ficção que só passa ao domingo)

 

Quando aprendi a conduzir, dividi o meu instrutor com outra rapariga, a Mariana. Era uma gaja de pacote à qual acrescentaram demasiada água — de resto, cozinharam-na na mesma forma bem enfarinhada, igual a tantas outras garotas geminadas, frutos de um mesmo ovo partido em pedaços exatamente iguais. Um estereotipo para apresentar à mãe. Mais alta e mais morena que eu, usava o cabelo comprido e atirava-o para o lado, contrariando o risco — uma rebeldia ensaiada, a única a que se permitia. Vestia apenas peças de corte senhoril, tinha uma predileção por casaquinhos de malha nos ombros, pérolas nas orelhas e tons sóbrios em todo o lado. Preferia o castanho e muitas vezes vestia-se integralmente dessa cor. Eu via-a cruzar a esquina a caminho do carro, todo o comprimento de perna enrolado nuns collants de mogno. Parecia um palitinho de All-Bran. Eu não duvidava que ela cagasse em função do calendário.

Fomos obrigadas a passar algum tempo juntas enquanto aprendíamos a dominar o Hyundai prateado. Em sessões de duas horas, alternávamos assentos: uma hora para ela, outra hora para mim; ela exibia-se na marcha atrás, eu mostrava-lhe como se faziam os pontos de embraiagem. Nas retas, trocávamos algumas palavras, mediadas pelo instrutor — ou a Mariana atirava-as contra a minha nuca enriçada. A familiaridade dos seus grandes dentes brancos convidava à partilha e os detalhes de uma vida-tipo iam sendo soprados através dos estreitos intervalos: estudava farmácia como quem busca minério, gostava de estrelícias, era capricórnio e via-o como uma característica mais definidora do que a rigidez com que as suas costas encaixavam no lugar do condutor. Em vez de histórias, eu devolvia-lhe migalhas — sim, não, a sério?, pois. A Mariana não levava a mal; as minhas respostas descuidadas ficavam soterradas no All-Bran, na estereoquímica, nas pérolas maiorquinas; a Mariana, como tantas outras, só queria ouvir o som das suas palavras refletido num par de olhos despertos.

No dia do exame de condução, a mão fina agarrou-me pelo braço e puxou-me com sorrisos através do átrio do centro de exames. Notei alguma urgência na forma como os longos dedos me pressionavam a carne. Parámos na casa-de-banho das senhoras. A Mariana encostou-se à fila de lavatórios.

— Tenho quase a certeza que me veio o período — disse, fazendo a cabeça rodar entre a porta entreaberta do cubículo em frente e as minhas sobrancelhas enrugadas.

Eu também tinha quase a certeza que lhe tinha vindo o período: eu estava com o período — adiantado, anormalmente doloroso, como uma porta arrombada. O meu útero e o da Mariana de mãos dadas, saltitando rumo ao pôr-do-sol sangrento. A passiva-agressividade feminina que cumprimenta com uma mão para logo esbofetear com a outra: menstruações sincronizadas. A realidade detestável de ter uma parte de mim, mesmo que tão primária e tão pouco exclusiva, influenciada por outra gaja.

— Queres… queres alguma coisa para isso? — perguntei, começando prontamente a vasculhar a minha mala.

— Tens um penso? Tens um penso?

O meu primo de sete anos usava o mesmo jeito ansioso e os mesmos agudos entusiasmados quando procurava por caramelos no armário da cozinha. A cena não me irritava menos por causa disso.

— Não. Tenho tampões — e uma vontade quase irresistível de os atirar contra o nariz que se arrebitava de embaraço à minha frente. Um jogo de dardos. Um apedrejamento. Confettis!

As minhas botas pretas despertaram um súbito interesse na Mariana. Aproximou-se um pouco de mim e procurou o seu reflexo nas biqueiras por engraxar. Depois, apontou-me um olhar que acreditava ser autoexplicatório. Mostrei-lhe que não o era empurrando a cabeça para a frente, num movimento de pescoço brusco. Uma dança de interrogações e traduções falhadas. Ela acreditava na empatia, mas eu sabia que, entre nós, os únicos elementos capazes de comunicar no silêncio eram os nossos úteros.

— Eu sou virgem — acabou por dizer.

— Hum. Eu também.

— Mas tu usas tampões…

Fez-se silêncio. Até o candeeiro retangular, que do teto observava toda a cena, parou de fazer o seu barulho típico de iluminação industrial. Passara os últimos dois meses com aquela caricatura no banco de trás: não aguentei mais. Senti a minha cara contorcer-se: a boca abria-se, os olhos a fechavam-se; ondas de calor avermelhavam as bochechas salientes, sucessivas gargalhadas que quase passavam por guinchos, um curto roncar porcino e brutalmente sincero. O meu corpo curvou-se, abracei a barriga que tremia com um braço e estendi o outro para a bancada de mármore. Nunca me tinha rido tanto em toda a minha vida. Entre os meus guinchos, ouvi o estampido de uma porta furiosa, o papel higiénico a ser puxado sem cerimónia,

— QUAL É A PIADA?

Ria-me com tal vigor que logo comecei a tossir. Abri uma torneira e atirei uma mão em concha de água para a minha cara. Depois, com a humanidade libertada pelo ataque de riso, voltei a olhar para a escuridão da minha mala. Acabei por encontrar a embalagem cor-de-laranja de um penso higiénico superabsorvente. Lancei-a para dentro do único cubículo fechado.

— Obrigada. És uma pessoa horrível.

Fiquei verdadeiramente aliviada ao ouvir aquela frase.

 

S. White

despesadiaria às 19:38
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