Terça-feira, 25 de Novembro de 2014

 

Também eu tive um sonho, um sonho que partia do patamar a que já teríamos sido içados pelos fundilhos se não fossem as falhas na corrente elétrica. Nesse sonho, em que dava por adquirida a igualdade entre os homens e entre estes e as mulheres, a paz universal cobria a terra habitável com o seu manto doce (°Bx ≥ 22) e as gomas ácidas tinham desconto de cinquenta por cento em cartão todo o ano. No meu sonho, a televisão tinha deixado de chamar desertificação à comodidade do despovoamento e os comboios partiam com aquela segurança que só eles para destinos desconhecidos. No meu sonho, todos, baixos e altos, gordos e magros, ruivos e negros, androides e janelas, ateus e agnósticos, desempregados e inativos, cretinos e idiotas, todos e todas podíamos andar sós nas ruas da noite sem medo de acordar três dias depois numa valeta de Timisoara com um rim a mais ou uma colónia de larvas no gesso. Os povos falavam todos a mesma língua gestual e as buganvílias, as buganvílias, nem sei que contar das buganvílias senão que haviam abdicado dos espinhos por respeito aos passarinhos que, agradecidos, esvoaçavam pelas esplanadas, piu piu, polvilhando os queques com escitalopram. Do fim do sonho esqueci-me quando o estremunhar foi substituído pelo susto da pontualidade, a realidade de um ônibus com o seu percurso ondulante agarrado a uma hora, uma hora certa. O estado em que ficou o ursinho que me deste no nosso terceiro aniversário diz-me que talvez tenha sido pelo melhor mais este esquecimento.



E.

despesadiaria às 13:23
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