Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

 

Uma Aventura na Pós-Adolescência

(dedicado a Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada)

 

Álgebra linear, ou lá o que é,” explicou o Chico, no seu jeito abrutalhado. “Sabes como é o Pedro. Deve estar a chegar. E o João? Não o vejo há três meses, desde aquilo.”

Luísa arregalou os olhos e inclinou-se sobre a mesa. “O João passou-se, ninguém te contou? Pediu a Teresa em casamento. Foi uma cena tão triste. Foi lá a casa com o fato das entrevistas de emprego e duas alianças de latão. Fazia questão de falar com o nosso pai. O problema é que se esqueceu de a avisar primeiro. Ela entrou em pânico, evidente, pediu-me para o meter na rua e depois trancou-se no quarto. E o João no vestíbulo: ninguém o convida a sentar-se, ninguém lhe oferece um café, não é nada disto que ele viu nos filmes.”

Em que século, em que planeta, é que esse gajo vive?” perguntou Chico, com um ar divertido.

Depois do acidente a Teresa deu-lhe demasiada confiança. Saiam todas as semanas, ele andava sempre a arrastá-la para a Cinemateca. Uma vez, repara bem nisto, vão a um filme italiano e ele tenta impressioná-la com aquela coisa que ele faz, deves saber_”

Estou mesmo a ver.”

_e começa a debitar os diálogos com vinte segundos de antecedência. A Teresa, porque gosta de armar caldo com malucos e também porque deve ter concluído que estava a lidar com uma criatura inofensiva, decide dar-lhe a surpresa da vida dele e começa a mexer-lhe na coisa.”

Epá”, disse o Chico, levantando-se energicamente e começando a pontapear o chão com a biqueira da bota.

O João cala-se logo com os diálogos e fica muito quietinho no assento, os olhinhos abertos, os lábios rígidos, mas ela garante que a respiração dele continua normalíssima e jura a pés juntos que a batida cardíaca seguiu imperturbável. Mas abaixo da cintura_”

Eu quero lá saber disso, ó Luísa!”

_tudo normal. Segundo ela, que eu não perguntei. Tamanho um pouco acima da média, asseadinho. Palavras dela. Mas isto sendo o João, o que é que ele faz? Antes de se vir, desvia a mão da Teresa, puxa de um lenço bordado do bolso do casaco e enrola-o à volta da coisa como se fosse ofensivo se ela o visse a_”

Eu sempre disse que ele não batia bem.”

_ estás bem a ver? Não é um guardanapo que havia ali à mão, Chico. Um lenço bordado no bolso do casaco.”

Quem é que anda com lenços no casaco?”

Quem é que se esporra para lenços bordados?”

“Não é normal.”

A Teresa nem sabe onde é que ele enfiou o lenço depois. Fica tão abalada que nem presta atenção ao resto do filme. Ele tenta comentar uma cena qualquer à saída e ela até tem medo de lhe dizer que não se lembra, pois o mais certo é que ele desate a papaguear as palavrinhas todas. Lá lhe diz que tem dor de cabeça e apanha um táxi. No dia seguinte baldou-se ao turno no supermercado com medo de o encontrar. Depois, dá para adivinhar, começa a ter dúvidas.”

É mesmo da Teresa.”

E vem-me com 'Ai, Luísa, será que estou a exagerar?' bla bla bla. Convence-se de que, na verdade, foi um gesto galante, eloquente. Ele continua a telefonar, deixa-lhe mensagens engraçadas (eu ouvi duas quando ela estava no duche e não achei graça nenhuma). Já com certeza de ter reagido histericamente, é ela quem faz o telefonema seguinte e o João é todo rococós e cavalheirismos e pergunta-lhe se pode passar lá por casa. Diz que tem uma surpresa. Ela põe-se logo a imaginar um gesto romântico, um ramo de flores, ou outra coisa qualquer com um simbolismo de cinema que ele depois tratará de explicar detalhadamente.”

Santa paciência.”

E a Teresa começa a cair na fantasia, a achá-la confortável. E uma hora depois ele aparece-nos à porta com a cara mais solene e assustadora do mundo e diz que quer falar primeiro com o nosso pai. A surpresa está no bolso, diz ele, com um sorrisinho. E saca do lenço.”

Não pode ser.”

A Teresa fica branca e eu também, pois pensei o mesmo: que ele ia fazer um daqueles truques de ilusionista e começar a sacar lenços esporrados, um para ela, outro para o nosso pai, outro para a nossa mãe e sabe-se lá quem mais. Mas dura pouco, pois no momento seguinte ele abre o lenço e mostra-lhe duas rodelas de latão e diz que a ama, e etc, etc, e ela percebe que está metida num grande sarilho, mas um sarilho diferente, pois entretanto o nosso pai chega da cozinha a perguntar o que se passa.”

Mas olha lá, o lenço era o mesmo ou não?”

Ó Chico, o que é que isso interessa?”

Silêncio. O Chico enfiou as mãos nos bolsos e voltou a pontapear o chão com a biqueira da bota.

O gajo nunca mais foi o mesmo desde que o Faial morreu.”

 

Alice G.

despesadiaria às 09:56
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