Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

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(Micções)

 

A velha impressora X LFH-7615 andava a manifestar, desde há umas semanas a esta parte, um comportamento deveras estranho. Sempre que recebia uma ordem de impressão, a vetusta máquina iniciava uma série de rugidos interiores, como se, tomada de uma crise intestinal aguda, fosse a qualquer momento regurgitar toda a porcaria ingerida numa pândega realizada na noite anterior. Porém, após alguns minutos de revolver visceral, a ameaça não se cumpria. Tampouco imprimia o documento que lhe fora pedido, seguindo-se um período de silêncio e placidez que perdurava até nova ordem de impressão. Os sintomas de má digestão perduraram por vários dias, aumentando, porém, o grau e intensidade dos tugidos internos da velha impressora sempre que os seus serviços eram necessários. De igual modo, continuava sem expelir das suas entranhas o que quer que fosse, dando a sensação que, à medida que os dias iam passando, cada vez ficava mais inchada. As perturbações intestinais, essas, já eram tão frequentes que se manifestavam agora a qualquer altura do dia. Aos bramidos interiores, que por si já assustavam todo o escritório, acresceram pequenos e súbitos movimentos da impressora, como se estivesse a ser dilacerada por cólicas infernais.  

Incomodado e saturado com toda a situação, o velho Dr. F. decidiu que estava na altura de substituir a impressora X LFH-7615, cujo préstimo, aparentemente, se esgotara. Encomendou um novo modelo, de última geração, e mandou que lhe levassem a impressora para o electrão mais próximo. Coube ao estagiário R. a ingrata tarefa de a transportar na sua última viagem. E foi durante o trajecto que o inusitado sucedeu. A velha impressora, após dias de desarranjos intestinais, começou a imprimir ininterruptamente. Como numa torrente contínua de diarreia, saiu do interior da impressora um total de 217 páginas, todas numeradas, contendo um texto com 91.357 palavras. Estupefacto, o estagiário R. passou o resto do dia e da noite seguinte em leitura desenfreada daquele extraordinário texto. No final, sabia que tinha em mãos algo de prodigioso. Todavia, faltava-lhe um título. Resolveu, após dias de desespero e inúmeras tentativas, chamar-lhe “A Cólica”. De seguida, enviou uma cópia a várias editoras, que prontamente se digladiaram entre si pelos direitos de publicação.

“A Cólica”, romance de estreia do escritor R., vai, hoje, na sua oitava edição, com mais de 100.000 exemplares vendidos em seis meses. Com os direitos de tradução já negociados, é presença permanente nos escaparates das livrarias, e a crítica não fala de outro assunto. “A revelação do século”, “Um romance visceral”, e “A melhor obra em prosa escrita em português”, tudo frases que constam da contracapa da última edição portuguesa.

 

nev       

despesadiaria às 15:09
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