Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

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A Casa Smithes

Peso da Régua, Julho de 1855

 

Querida tia Dotty,

Com enormes saudades lhe escrevo, nesta breve paragem que faço na Régua. Sigo a caminho do Porto, depois de uma prolongada visita à região vinhateira. Lamento não lhe dedicar o tempo que seguramente lhe devo nesta e em tantas outras cartas que falho em escrever-lhe; devo, porém, embarcar para a cidade em poucos minutos. Mas não irei sem lhe deixar, para seu informado cuidado, estas três páginas escritas com a pressa com que ultimamente correm os meus dias. Digo-lhe, ao demais, que para compreender o novel emaranhado que é a minha vida, bastará o anúncio breve das suas principais linhas para se poderem atar os nós decisivos do entendimento.

Fugindo à partida dos variadíssmos problemas que me enlameiam o passo, digo com alegria, a si, querida tia, que a vindima deste ano, apesar da parca quantidade de uvas, deverá produzir vinhos prodigiosos. No presente estado de desolação que se abateu pelo Douro, será um sopro abençoado e de esperança. A praga continua a alastrar pela terra. Todas as aldeias desesperam quando o labor do fio de meses é perdido em poucos, nefastos dias. Há sete anos, quando visitei pela primeira vez o país do vinho, pareceu-me ter descoberto um paraíso habitado, não por anjos, mas por uma raça de criaturas toscas e sujas, em plena comunhão com o mundo natural e todos os seus seres inferiores. Não esperei nunca a sua amizade, e menos ainda a sua confiança. Depois, com mais atenção, vi como dominavam e subvertiam as leis desse mundo e sobre ele estendiam o edifício rústico, mas aprumado, da sua sociedade. Ora, assistimos a um tempo de estranha novidade para a ordem antiga que subsiste no Douro. Esta nova moléstia não estava prevista nem foi contada em nenhuma prece ou lição deixada pelos séculos. Nada sobrevive no escuro; as pessoas estão desamparadas.

Um dos primeiros lavradores com quem estabeleci negócio foi o senhor Motta, actualmente um grande amigo da nossa casa. Com ele aprendi o cuidado que se deve a tudo o que cresce da terra, homem ou planta. Sendo lavrador com extensíssimas terras no distrito de Covas, impressionou-me a sua profunda angústia quando a moléstia primeiro atingiu as suas vinhas. À primeira vide doente, dedicou dias inteiros de cuidados, passados quase sem comer e sem dormir. Toda a comunidade da quinta se mobilizou em meios e braços para suster a praga. Quando, ao final de sete dias, a vide que ele tão extremosamente tratou, cuidou como pode e como não sabia, com ínfimas poções em que se descobrisse o milagre de um remédio; quando a vide, por fim, morreu, todos se juntaram ao senhor Motta, que permaneceu de joelhos, de mãos na terra, prostrado sobre o cepo seco e morto. Durante essa fria noite, entre ele e entre todos que o viram partilhou-se o mais íntimo desalento.

O luto tem-se espalhado de aldeia em aldeia, da Régua até para lá da Valeira. A terra sofre, e as pessoas que nela crescem sofrem com ela. Sempre foi assim no Douro, contam-me. Porém, como a força do rio que por lá corre, as dores calam-se nos dias de lavoura e a esperança vai renascendo naquela gente, não sei ainda por que misteriosa luz. O senhor Motta, ao longo de muitas e laboriosas semanas, tem inventado formas de, se não anular, ao menos abrandar os efeitos da terrível doença. Graças a ele, ao seu engenho e perseverança, nesta vindima os nossos vinhos deverão sair já com o vigor que lhes é sobejamente reputado em Inglaterra.

Queria tia, muito contente lhe conto que o sucesso da nossa casa se deve à estimável e preciosa parceria com os lavradores desta terra. Os terraços da nossa belíssima casa de Lamellas, em Covas, dificilmente rivalizarão com o seu magnífico jardim de Entre-Quintas; mas a bênção que aquela casa é!, por nos permitir a gerência de todos os negócios na região, a visita dos nossos queridos amigos e, ainda e mais que tudo, o repasto das doces tardes de verão. Não há decididamente sol tão puro como neste país – a tia sempre me disse. E desse sol, lhe digo, vem toda a excepcionalidade deste vinho.

As grandes casas de lavradores do Douro percebem isso. Uma figura, em particular, domina com perfeita mestria essa maravilhosa alquimia que transforma o sol em vinho. Os nossos compatriotas no Porto vêem-na apenas como mais uma nativa ignorante, indigna do seu interesse. Messr. Greig pensava precisamente o contrário, e escreveu-lhe pouco antes de partir recomendando os meus préstimos e incentivando o negócio com a casa. Foi assim que conheci Dona Antónia. Estávamos na Régua, eu e Henry, que tinha vindo visitar o país por altura das vindimas. A inteligência de Dona Antónia cativou-me de imediato e desde então tenho-me correspondido regularmente com ela. Planeio, aliás, uma grande parceria com a sua casa, se assim no Porto me derem os meios para tal. Dela tenho recebido preciosos conselhos. O senhor Motta entusiasma-se sempre com os relatos do trabalho na sua mais requintada vinha, o Vesúvio. A sensibilidade daquela grande senhora para o vinho e para os negócios são já lendárias entre as gentes do Douro. Como já o confessei a Henry, tenho a inteira certeza que, se pretendemos o contínuo e crescente sucesso da nossa casa, Dona Antónia será a chave para o alcançar.

Mas eis que se levanta a magna e indignada oposição dos nossos compatriotas no Porto. Já lhe contei, tia Dotty, como me sinto tristemente excluído, duplamente expatriado, da excelsa comunidade inglesa naquela cidade. Nem as elogiosas palavras de Messr. Grieg valeram à minha boa aceitação. Os capitais que me faltam para firmar o meu nome como sócio de propriedade, em pé de igualdade com Mr. Archibald e o irmão em Londres, impedem a minha plena inclusão no grupo dos comerciantes. Dificultam a minha entrada no club, ignoram-me em todas as festividades que animam os salões. Com grosseiro descaramento, concedem-me os fundos necessários à administração dos negócios apenas ao juro que se pratica aos portugueses de crédito duvidoso. Cheiram e apregoam publicamente a ruína! Todas as portas se fecham e nas minhas costas vão segredando as desgraças da nossa casa, antes próspera, agora irresponsavelmente deixada ao cuidado de um simplório do Yorkshire. Sei que o dizem e magoa-me – não por mim, mas por todo o respeito que eles devem a Messr. Grieg, e a si também, tia Dotty, a quem eles tanto devem.

Não me queixo do desprezo que me votam. Aliás, agradeço-o. Sem ele dificilmente teria descoberto e jamais entendido os segredos do Douro. Os ingleses vivem já com dificuldade na urbe imunda do Porto, nunca se veriam entre os vinhedos da região. O desabafo vem também do meu amigo Mr. Forrester, a notabilíssima excepção a esta regra –  ou, talvez, nem por ela contemplado, já que o cofre da sua nacionalidade há muito que abandonou as ilhas britânicas, e está agora preso ao curso deste rio. Foi ele a inspiração do meu plano. O sucesso da sua firma deve-se, quase por inteiro, à sua desmesurada dedicação à terra do vinho. Sigo confiante no seu encalço.

Conto-lhe, por fim, que me agarro a este plano nas noites em que desfio as humilhações que no Porto me têm preparado. No meu pensamento o terei também quando ler os votos do meu casamento. Ainda não conheci a minha noiva, Miss Teage, com quem me casarei em breve. Não importa conhecê-la. É apenas um expediente, uma mercadoria, tal como eu o sou, tal como o casamento será o preço para aceder a um estatuto aceitável dentro da comunidade e aos seus valiosos capitais. Os Teage são dela um importante pilar de respeitabilidade. Demonstraram a sua imensa generosidade ao ceder a mão de uma de suas filhas a um pária como eu. Aceito todas as condições em nome da nossa ainda periclitante casa, e em nome deste plano que me preenche as horas. Sinto genuína pena por Miss Teage. Talvez venha a amá-la, talvez não, talvez ela compreenda o negócio do nosso casamento; talvez não. Espero, pelo menos, dar-lhe uma vida digna e honrada. Dar-lhe-ei também o meu sonho, se ela dele quiser comungar. Dar-lhe-ei, com a mesma benevolência com que o sol acaricia a terra, a promessa de criar algo novo e belo. E talvez o amor.

Devo partir, tia Dotty. Escrever-lhe-ei assim que chegar ao Porto, em dois dias. Deverei encontrar-me com Henry em Outubro, por altura das vindimas. Quando dermos por terminada a lavoura, marcarei o meu casamento para a semana seguinte. E embarcarei para Inglaterra por altura do Natal. Apresentar-lhe-ei Miss Teage, digo, Mrs. Smithes nessa altura. Anseio por vê-la, querida tia, mais do que qualquer outra coisa neste mundo.

O seu devoto sobrinho, que lhe guarda todo o afecto e saudade,

John

 

p.a.leitão

despesadiaria às 14:28
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